A saúde pública em Goiás marca um ponto significativo na ampliação de seus serviços com a retomada das atividades do banco de olhos do Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás (Cerof-UFG). Após um período de inatividade de seis anos, essa iniciativa promete transformar o cenário da doação e transplante de córneas no estado. O movimento estratégico visa não apenas reativar uma infraestrutura vital, mas também otimizar a captação de tecidos na rede estadual de doação, um passo crucial para reduzir a extensa fila de espera. Atualmente, 1.847 pessoas aguardam por um transplante de córnea em Goiás, com um tempo médio de espera que se estende por 1 ano e 9 meses, números que a reativação do banco de olhos busca diminuir substancialmente, oferecendo uma nova perspectiva de qualidade de vida para centenas de pacientes.
Retomada estratégica e o impacto na fila de espera
A reativação do banco de olhos do Cerof-UFG representa um avanço significativo para a saúde ocular em Goiás. Este centro, que agora volta a operar plenamente, tem a missão primordial de fortalecer o processo de captação, avaliação e distribuição de córneas para transplante, atuando em conjunto com a rede hospitalar estadual. A iniciativa não apenas restaura um serviço essencial que estava desativado, mas o faz com um planejamento focado na expansão e eficiência.
Um novo fôlego para quem aguarda
A fila de espera por um transplante de córnea em Goiás é uma realidade desafiadora para quase duas mil pessoas. Com um tempo médio de espera de um ano e nove meses, os pacientes enfrentam não apenas o desconforto visual, mas também as limitações impostas pela condição, que afeta diretamente sua autonomia e capacidade de realizar atividades cotidianas. A retomada das atividades do banco de olhos do Cerof-UFG é, portanto, um alívio e uma esperança concreta. As primeiras captações, realizadas no Hospital Estadual de Urgências Dr. Henrique Santillo (Heana), em Anápolis, poucas horas após o início da atuação da equipe, demonstram a urgência e o potencial imediato da iniciativa. Este sucesso inicial reforça a crença de que a nova estrutura operacional tem o potencial de acelerar significativamente a diminuição da lista de espera, proporcionando uma chance de restauração da visão e da qualidade de vida para um grande número de goianos.
A particularidade da doação de córneas
A doação de órgãos e tecidos segue protocolos rigorosos e específicos, mas a córnea possui uma característica singular que a diferencia de outros órgãos sólidos, como coração, fígado ou rins, e que amplia enormemente seu potencial de captação. Compreender essa particularidade é fundamental para otimizar os processos de doação e maximizar o número de transplantes.
Ampliando as possibilidades de captação
Diferentemente dos órgãos sólidos, cuja doação é estritamente condicionada ao diagnóstico de morte encefálica – um estado clínico que exige condições específicas e, infelizmente, é menos frequente –, a córnea pode ser captada também após óbitos por parada cardiorrespiratória (PCR). Essa flexibilidade estende o leque de potenciais doadores, pois casos de PCR são mais comuns e podem ocorrer em uma variedade maior de cenários hospitalares e até mesmo domiciliares, desde que a notificação e o processo de captação sejam realizados dentro de um prazo adequado.
Para que essa vantagem se concretize, no entanto, é crucial a existência de um sistema integrado e bem articulado. Isso inclui a identificação oportuna dos casos de óbito por PCR, uma abordagem familiar qualificada para obter o consentimento da doação, e uma integração eficiente entre as equipes assistenciais dos hospitais, a Organização de Procura de Órgãos (OPO) e os bancos de olhos. Essa sinergia garante que cada oportunidade de doação seja aproveitada, transformando um momento de perda em um gesto de vida para outro indivíduo. A capacidade de captação pós-PCR é um pilar da estratégia de ampliação em Goiás, permitindo que a rede de transplantes seja mais robusta e eficaz.
Reestruturação do sistema estadual de transplantes
Até a retomada do banco de olhos do Cerof-UFG, a Fundação Banco de Olhos de Goiás (Fubog) era a única instituição responsável pela captação de córneas no estado, desempenhando um papel crucial na manutenção desse serviço vital. Contudo, a demanda por transplantes em Goiás superava a capacidade de uma única entidade, evidenciando a necessidade de uma expansão estratégica e uma divisão de tarefas. A reativação do banco do Cerof-UFG culminou em um novo modelo operacional que promete duplicar a capacidade e a eficiência da rede.
Divisão de responsabilidades para maior eficiência
A Secretaria da Saúde de Goiás (SES) estruturou uma divisão estratégica de unidades entre os dois bancos, visando não apenas ampliar a capacidade operacional, mas também fortalecer todo o sistema estadual de transplantes. Pelo novo modelo, o Cerof-UFG terá sua atuação focada nos hospitais estaduais, incluindo o Hospital das Clínicas-UFG/EBSERH e o Hospital Araújo Jorge. Além disso, assumirá a responsabilidade pelas unidades da região de Anápolis, tendo o Hospital Estadual de Urgências Dr. Henrique Santillo (Heana) como seu principal hospital-sede para captações.
Em contrapartida, a Fubog continuará sendo responsável pelas captações realizadas nos Institutos Médico Legais (IML) de Goiânia e Aparecida, bem como no Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). Sua área de atuação também abrangerá as unidades municipais e privadas, em uma atuação complementar que garante a cobertura em todo o estado. Essa distribuição inteligente e coordenada das responsabilidades é fundamental para otimizar os fluxos, evitar sobreposições e assegurar que o maior número possível de oportunidades de doação seja convertido em transplantes. O secretário da Saúde, Rasível Santos, enfatiza que essa retomada e o novo modelo são fruto de um alinhamento institucional meticuloso, conduzido pela Gerência de Transplantes da Secretaria da Saúde.
Fortalecendo a cultura da doação
A eficácia de um programa de transplantes não depende apenas de infraestrutura e expertise técnica, mas, fundamentalmente, da sensibilização da população e da consolidação de uma cultura de doação. A reativação do banco de olhos do Cerof-UFG e a reestruturação do sistema estadual são pilares que também visam reforçar essa consciência coletiva.
Compromisso com a vida e a qualidade do cuidado
O secretário da Saúde, Rasível Santos, destaca que o principal objetivo é “organizar os fluxos, fortalecer a cultura da doação e transformar cada notificação de óbito em uma oportunidade real de devolver qualidade de vida às pessoas que aguardam por um transplante em Goiás”. Essa visão transcende a mera logística, abraçando um compromisso humanitário. O Hospital Estadual de Urgências Dr. Henrique Santillo (Heana), por exemplo, já é um centro de referência no incentivo à doação de órgãos e tecidos, com programas permanentes de capacitação e sensibilização de suas equipes. A coordenadora da OPO do Heana, Nádia Borges, reforça que a parceria com o Cerof-UFG representa um “passo concreto para integrar e fortalecer o processo de doação de córneas”, especialmente em uma cidade com grande potencial para captações.
Katiuscia Freitas, Gerente da Central Estadual de Transplantes da Secretaria da Saúde de Goiás, salienta que “a ampliação das captações representa não apenas avanço técnico, mas também um compromisso com a humanização do cuidado e com o acesso da população a tratamentos que devolvem autonomia e qualidade de vida”. A doação de órgãos e tecidos é reiteradamente reconhecida como um gesto de solidariedade que salva e transforma vidas. A decisão de ser um doador deve ser comunicada à família, pois é ela quem autorizará a doação no momento oportuno. A conscientização e o diálogo familiar são etapas cruciais para que o desejo do doador seja respeitado e muitas vidas possam ser beneficiadas por essa generosidade.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. O que é o Banco de Olhos do Cerof-UFG e qual sua importância?
O Banco de Olhos do Centro de Referência em Oftalmologia da Universidade Federal de Goiás (Cerof-UFG) é uma unidade especializada na captação, processamento, avaliação e distribuição de córneas para transplante. Sua importância reside na capacidade de fornecer tecidos oculares de alta qualidade, essenciais para pacientes com doenças ou lesões que comprometem a visão, ajudando a reduzir a fila de espera e restaurar a qualidade de vida.
2. Por que a doação de córneas é diferente da doação de órgãos sólidos?
A principal diferença é que a córnea pode ser captada tanto em casos de morte encefálica quanto após óbitos por parada cardiorrespiratória (PCR). Essa particularidade amplia significativamente o universo de potenciais doadores em comparação com órgãos sólidos, cuja doação é restrita a casos de morte encefálica, tornando o processo de captação de córneas mais flexível e com maior potencial.
3. Como a nova divisão de responsabilidades entre o Cerof-UFG e a Fubog impacta a doação de córneas em Goiás?
A nova divisão estratégica otimiza e expande a capacidade de captação no estado. O Cerof-UFG focará em hospitais estaduais e na região de Anápolis, enquanto a Fundação Banco de Olhos de Goiás (Fubog) manterá sua atuação em IMLs, SVO e unidades municipais e privadas. Essa distribuição coordena esforços, aumenta a eficiência e visa acelerar a diminuição da fila de espera por transplantes de córnea, garantindo que mais oportunidades de doação sejam aproveitadas em todo o estado.
4. Como uma pessoa pode se tornar um doador de córneas?
Para se tornar um doador de córneas (e de outros órgãos e tecidos), o passo fundamental é expressar claramente sua vontade à sua família. No Brasil, a decisão final sobre a doação cabe à família no momento do óbito. Portanto, é essencial que os familiares estejam cientes e confortáveis com a decisão do indivíduo, pois a comunicação clara e antecipada é o que possibilita o gesto de solidariedade.
O gesto de solidariedade da doação de órgãos e tecidos tem o poder de transformar vidas. Se você deseja ser um doador e ajudar a reduzir as filas de espera, converse com sua família e deixe sua decisão clara. Seu gesto pode ser a esperança de um futuro mais claro para alguém.



