A pronúncia da palavra “recorde” emerge como o ponto central de uma inusitada controvérsia que capturou a atenção do cenário midiático e jurídico brasileiro. O cerne da questão reside na acentuação tônica do termo: seria “ré-cor-de”, com a força na primeira sílaba, ou “re-cór-de”, com a ênfase na segunda? O debate, que transcende a mera discussão gramatical, ganhou proporções alarmantes ao envolver a possibilidade de uma multa milionária, estimada em dez milhões de reais, para grandes emissoras de televisão. Este cenário hipotético, porém alarmante, lança luz sobre a responsabilidade linguística dos veículos de comunicação e o impacto da mídia na padronização da língua portuguesa, gerando questionamentos sobre a interpretação de normas e a percepção pública da “fala correta” em um país tão vasto e com tantas variações regionais.
A disputa fonética e as raízes da palavra
A palavra “recorde” é um exemplo fascinante de como a língua portuguesa absorve e adapta termos estrangeiros, gerando, por vezes, dilemas de pronúncia. Sua origem está no inglês “record”, que, dependendo do contexto, pode ser pronunciado de duas formas distintas: como substantivo (/’rɛkɔːrd/ – ré-corde) ou como verbo (/rɪˈkɔːrd/ – re-córd). No entanto, ao ser incorporada ao português, a palavra assumiu predominantemente o significado de “melhor marca” ou “feito extraordinário”, correspondendo ao substantivo inglês.
A norma culta da língua portuguesa, conforme estabelecido por diversos dicionários de prestígio, como o Houaiss e o Aurélio, e por gramáticas renomadas, preconiza a pronúncia paroxítona, ou seja, com a sílaba tônica na penúltima sílaba: “re-CÓR-de”. Essa pronúncia segue a regra geral de acentuação para palavras terminadas em “e”, “s” ou “em”, que são naturalmente paroxítonas a menos que haja um acento agudo ou circunflexo indicando o contrário. A pronúncia “RÉ-corde”, com a tônica na primeira sílaba, embora popular em algumas regiões ou por influência do inglês, é considerada desviação da norma padrão por linguistas e estudiosos da prosódia portuguesa. O prefixo “re-” no português, quando não acentuado graficamente, não costuma ser a sílaba tônica em substantivos derivados de verbos, reforçando a validade da pronúncia paroxítona para “recorde”.
A influência da mídia e o risco de desvio linguístico
A ampla disseminação de informações e entretenimento pelos meios de comunicação de massa confere-lhes uma responsabilidade singular na difusão e preservação da norma culta da língua. Locutores, jornalistas e apresentadores são, para muitos, referência de fala e escrita. Quando um veículo de grande alcance adota uma pronúncia que diverge da norma culta, mesmo que por desconhecimento ou mera repetição de um hábito difundido, ele pode inadvertidamente contribuir para a cristalização de um erro e para o enfraquecimento das regras gramaticais estabelecidas.
Essa questão vai além da mera formalidade acadêmica; ela toca na clareza da comunicação e na integridade do idioma. Especialistas em linguística e educadores têm expressado preocupação com a crescente flexibilização das normas linguísticas em programas televisivos, noticiários e outras produções. Argumenta-se que a pronúncia incorreta ou a grafia inadequada de palavras comuns por figuras públicas ou em contextos de alta visibilidade podem confundir o público, especialmente crianças e jovens em fase de aprendizagem. A discussão sobre “recorde” é, portanto, um microcosmo de um debate maior sobre a responsabilidade social das empresas de comunicação na manutenção da qualidade da língua portuguesa.
A ameaça da multa milionária e as bases jurídicas
A especulação de uma multa de dez milhões de reais, associada à pronúncia de “recorde”, eleva a discussão linguística para um patamar jurídico e econômico preocupante. Embora os detalhes específicos de um suposto processo ou entidade reguladora não sejam publicamente confirmados, a possibilidade sugere que tal penalidade poderia estar embasada em princípios de defesa do consumidor, na legislação de comunicação social ou em diretrizes que estabelecem a qualidade da programação veiculada.
No Brasil, os veículos de comunicação são submetidos a diversas regulamentações, que vão desde aspectos técnicos da transmissão até o conteúdo e a forma com que ele é apresentado. Embora seja raro que multas dessa magnitude sejam aplicadas exclusivamente por questões de prosódia, a base legal para intervenções em conteúdo existe. Órgãos reguladores poderiam argumentar que a veiculação reiterada de pronúncias consideradas errôneas, especialmente em programas educativos ou jornalísticos, representa uma falha no dever de informar corretamente ou até mesmo um desrespeito às normas de linguagem que regem as concessões de rádio e televisão. Além disso, a Lei de Defesa do Consumidor (CDC) estabelece que o fornecedor de serviços (incluindo serviços de mídia) deve prezar pela clareza e correção das informações prestadas. Um argumento hipotético poderia ser que a “informação” linguística prestada de forma incorreta prejudicaria o “consumidor” (telespectador) em seu aprendizado e uso do idioma.
Precedentes e a complexidade da regulamentação linguística
A ideia de uma multa por erros linguísticos levanta questões sobre a liberdade de expressão e a linha tênue entre a regulação da qualidade do conteúdo e a censura. Embora não existam precedentes diretos de multas tão expressivas aplicadas a emissoras especificamente por erros de pronúncia de uma única palavra, casos de infração a outras diretrizes de conteúdo – como a inadequação etária, a publicidade abusiva ou a desinformação deliberada – já resultaram em advertências e sanções financeiras.
A complexidade reside em como definir e fiscalizar o “erro linguístico” em um país com tantas variações dialetais e sociolectais. A língua é viva e evolui, e o que hoje é considerado um desvio pode amanhã ser incorporado à norma. No entanto, em um contexto formal e mediático, espera-se a adesão à norma culta, que serve como um padrão de inteligibilidade e prestígio. A intervenção de um órgão regulador nesse campo, especialmente com multas milionárias, estabeleceria um novo e controverso precedente, forçando emissoras a intensificar seus departamentos de revisão e treinamento linguístico. Isso poderia gerar um efeito cascata, onde a vigilância sobre a linguagem se tornaria uma prioridade ainda maior para evitar não apenas a perda de credibilidade, mas também pesadas sanções financeiras. A discussão se aprofunda: quem detém a autoridade final sobre a “correção” da língua em um meio de comunicação de massa, e qual o limite para essa intervenção sem sufocar a naturalidade e a diversidade da comunicação?
O impacto no jornalismo e na comunicação
O debate sobre a pronúncia de “recorde” e a potencial multa milionária ressalta a importância da precisão linguística no jornalismo e na comunicação em geral. Em um cenário onde a credibilidade é um ativo valioso, a atenção aos detalhes, incluindo a correção gramatical e prosódica, torna-se um diferencial. A preocupação com a “fala correta” vai além da mera erudição; ela impacta diretamente a percepção do público sobre a seriedade e a competência de um veículo ou profissional. Para emissoras de grande porte, que moldam a linguagem de milhões de pessoas diariamente, a responsabilidade é ainda maior. Este episódio, embora hipotético na sua concretude, serve como um alerta para a necessidade de constante atualização e rigor por parte de todos os envolvidos na produção de conteúdo para os meios de comunicação, garantindo que a informação seja veiculada não apenas com clareza e objetividade, mas também com a máxima correção linguística.
FAQ – Perguntas Frequentes sobre a pronúncia de “recorde”
1. Qual é a pronúncia correta da palavra “recorde” de acordo com a norma culta da língua portuguesa?
A pronúncia correta, segundo a norma culta e a maioria dos dicionários brasileiros, é paroxítona, com a sílaba tônica na segunda sílaba: “re-CÓR-de”.
2. Por que a pronúncia “RÉ-corde” é considerada incorreta, apesar de ser usada por algumas pessoas?
A pronúncia “RÉ-corde” é considerada incorreta porque a palavra “recorde” foi adaptada do inglês como substantivo e, na língua portuguesa, palavras terminadas em “e” são geralmente paroxítonas , a menos que haja um acento gráfico indicando o contrário. A influência do inglês, onde o substantivo “record” tem a tônica na primeira sílaba, pode levar a essa pronúncia popular.
3. Existe algum precedente para multas milionárias por erros de pronúncia em veículos de comunicação no Brasil?
Até o momento, não há precedentes conhecidos de multas milionárias aplicadas a veículos de comunicação especificamente por erros de pronúncia de uma única palavra. As multas geralmente estão relacionadas a outras infrações regulatórias, como conteúdo impróprio, publicidade irregular ou desinformação. A discussão em torno de “recorde” é mais um debate sobre a responsabilidade linguística da mídia e a potencialidade de tais sanções.
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