terça-feira, janeiro 27, 2026
InícioArtigosQuando a boa notícia vira nota de rodapé. Inflação controlada parece desapontar...

Quando a boa notícia vira nota de rodapé. Inflação controlada parece desapontar a mídia.

Há um desserviço silencioso — e recorrente — no modo como parte da imprensa cobre a economia: quando os números vêm piores, o noticiário grita “caos”; quando vêm melhores, o assunto sai pela porta dos fundos, diluído em ressalvas e cenários sombrios. Sabemos que a desgraça vende mais que a paz, mas cabe reflexão à grande mídia sobre o seu papel na sociedade. O IPCA de outubro, de 0,09% — o menor para o mês desde 1998 — e a inflação acumulada no ano em 3,73% são um bom exemplo. Em vez de reconhecer que a descompressão inflacionária melhora o ambiente para famílias, empresas e governo, preferiu-se muitas vezes concentrar a lente no “mas”: “mas ainda tem riscos”, “mas a inflação de serviços”, “mas o câmbio”. Riscos sempre existirão; o que não pode é o filtro seletivo que amplifica o ruído quando piora e abafa o sinal quando melhora. Isso sob perspectiva da saúde mental do brasileiro comum e a responsabilidade da mídia que prefere manter-se voraz em relação a audiência, deixando a responsabilidade SOCIAL de um meio de comunicação SOCIAL no fundo da sua prateleira moral.

Uma inflação mensal tão baixa em outubro não é detalhe estatístico; é alívio real. Energia mais barata(ou menos custosa) significam custos recuando no carrinho do supermercado e no caixa de quem empreende. O acumulado de 3,73% no ano não é a vitória final contra a inflação (ninguém sério dirá isso), mas é claramente um passo na direção certa. No horizonte próximo, isso tende a preservar renda real, reduzir pressões automáticas de reajustes e abrir espaço, se a tendência persistir, para política monetária menos contracionista. É assim que ciclos de confiança se constroem: primeiro estabiliza-se o preço, depois o investimento volta a respirar, o crédito perde a trava e o emprego melhora com menos sobressaltos.

Minha rabugisse não é por “otimismo ingênuo” e sim por honestidade intelectual. Quando o IPCA acelera, manchetes destacam a corrosão do poder de compra, a ameaça à meta, a “conta de luz que explode”. Tudo legítimo. Quando desacelera, por que o mesmo zelo para traduzir o que isso significa na vida das pessoas não aparece na mesma escala? Por que não vemos, com idêntica ênfase. Que a previsibilidade de custos melhora a precificação e o planejamento? Que para o governo índices mais comportados aliviam correções de benefícios e contratos, contribuindo à gestão fiscal? O equilíbrio da cobertura não é perfumaria: ele ajuda a calibrar expectativas.

Também é saudável listar os poréns, mas no lugar certo da frase. Sim, a inflação em 12 meses ainda roda perto do teto da banda, serviços costumam ser mais resistentes, choques de alimentos podem ocorrer, e o câmbio nunca é um cordeiro. A cautela do Banco Central não vai evaporar por um único número, choques externos (commodities, geopolítica) podem bagunçar o coreto. Tudo isso é verdade, a diferença entre jornalismo responsável e profecia autocumprida é a hierarquia da informação: primeiro o fato — há desinflação e ela é relevante; depois os riscos — o que pode atrasar ou reverter a melhora. Inverter essa ordem cria um viés de calamidade que deseduca o público, encarece o custo do capital e prejudica quem decide hoje para colher amanhã.

Para as famílias, a deteriorização do salário desacelera; negociações salariais tendem a exigir reajustes menores para preservar renda real; a conta de luz mais comportada ajuda a fechar o mês. Para o governo, a dinâmica mais benigna das correções automáticas tira pressão do gasto indexado, num contexto fiscal que já é desafiador. E, para a política monetária, a mensagem é de persistência: consolidar alguns meses adicionais nessa toada cria o espaço responsável para queda sustentada de juros — não por voluntarismo, mas por dados.

Não se trata de pintar o Brasil de cor-de-rosa; trata-se de parar de pintá-lo sempre em preto-e-branco. Os dados de outubro são sinais positivos em uma trajetória que precisa ser consolidada. Transformá-lo em rodapé, enquanto se reservam as manchetes para o apocalipse, é prestar um desserviço: informa mal, educa pouco e ainda sabota a própria variável que mais depende de confiança — o investimento.

Se a imprensa quer ajudar o país — e não há razão para supor que não queira —, que continue vigilante, crítica e exigente. Mas que o seja também quando as coisas melhoram. Porque, neste momento, a notícia é boa: a inflação perdeu fôlego, a acumulação no ano está em 3,73%, e isso melhora o horizonte para consumo, investimento e planejamento. Reconhecer o fato não é propaganda; é respeito ao leitor. O alarmismo, sim, é que tem sido um péssimo negócio.

Bruno Netto é atualmente Diretor de Planejamento Estratégico na Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e foi Sub secretário de Indústria, Comércio, Serviços e Mineração do Estado de Goiás entre 2020/21.

CONTEÚDO RELACIONADO
- Advertisment -
Google search engine

Mais Populares

Comentários Recentes