A Prefeitura de Goiânia, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra), analisa a possibilidade de implementar uma nova via pública no interior do Parque Flamboyant, localizado no bairro Jardim Goiás. A iniciativa visa desafogar o tráfego de veículos na região, que enfrenta constantes congestionamentos, especialmente em horários de pico. Contudo, a proposta tem gerado debates e encontrado forte resistência por parte de órgãos ambientais, de planejamento urbano e especialistas, que alertam para os potenciais impactos negativos no meio ambiente e na qualidade de vida dos frequentadores do parque. O estudo ainda está em fase preliminar, e a decisão final dependerá de análises técnicas aprofundar e do diálogo com diversos setores da sociedade.
Cenário de tráfego e a proposta da Seinfra
A crescente frota de veículos e a expansão urbana de Goiânia impõem desafios contínuos à mobilidade. No Jardim Goiás, a situação é particularmente crítica para os motoristas que se deslocam no sentido oeste-leste. As opções atuais de acesso ao bairro são limitadas, resultando em gargalos que comprometem a fluidez do trânsito e geram transtornos diários para milhares de cidadãos.
Congestionamento no Jardim Goiás
As principais vias de acesso para quem trafega no sentido oeste-leste e deseja entrar no Jardim Goiás são a Rua 56-A e a Avenida Jamel Cecílio. A Rua 56-A, caracterizada por ser uma viela estreita e com pouca ou nenhuma calçada, transforma-se em um ponto de grande lentidão e congestionamento nos períodos de maior movimento. Motoristas enfrentam filas extensas, elevando o tempo de deslocamento e a frustração. Paralelamente, a Avenida Jamel Cecílio, uma das artérias mais importantes da capital, também registra um fluxo veicular intenso, contribuindo para o cenário de engarrafamento na região. Diante deste panorama, a Seinfra busca alternativas para aliviar essa pressão sobre o sistema viário existente, propondo uma solução que, embora controversa, visa otimizar a circulação e facilitar o acesso ao interior do bairro. A intervenção planejada pela Seinfra prevê a construção de uma nova via em uma das extremidades do Parque Flamboyant, localizada a aproximadamente 250 metros da Rua 56-A. A área em estudo situa-se próxima ao muro de uma propriedade particular e coincide com o trecho inicial da canalização do Córrego Sumidouro, um manancial que tem sido alvo de diversas intervenções urbanas ao longo de aproximadamente 1,5 quilômetro de sua extensão.
A controvérsia e os argumentos contra
A possibilidade de abrir uma rua dentro do Parque Flamboyant desencadeou uma onda de preocupação e oposição. Órgãos municipais e especialistas na área ambiental e urbanística têm se posicionado de forma contrária à proposta, argumentando que os prejuízos ao parque e ao seu ecossistema seriam significativos e irreversíveis.
Impactos ambientais e urbanísticos
A Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) e a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Seplan) manifestaram-se contrariamente à ideia. Para esses órgãos, a medida seria prejudicial ao parque, e o problema do trânsito poderia ser resolvido por meio de alternativas consideradas mais viáveis e menos impactantes. O advogado Sebastião Ferreira Leite, que participou ativamente das negociações para a destinação da área ao Parque Flamboyant em 2003, enfatiza que a criação de uma rua no interior do parque é inviável. Segundo ele, o sistema viário da região foi deliberadamente suprimido justamente para que o local fosse estabelecido como uma área de preservação ambiental. “É como no sítio do Xingu. Parque é área de preservação. Não faz sentido permitir a circulação de carros dentro do parque”, argumentou. Ele alerta que transformar o espaço em uma via de passagem o converteria, na prática, em uma grande rotatória, elevando substancialmente o risco de acidentes e forçando os frequentadores a atravessarem o parque em meio ao tráfego de veículos. O advogado ressaltou a vulnerabilidade de idosos, crianças, mães com filhos pequenos e pessoas com animais de estimação que utilizam o parque diariamente para lazer e caminhadas, especialmente nas primeiras horas da manhã.
As preocupações se estendem ao impacto ambiental. O especialista em Arquitetura e Urbanismo David Finotti, membro da Associação para Recuperação e Conservação do Ambiente (Arca), declarou que a proposta desrespeita o Plano Diretor. Finotti apontou a existência do Córrego Sumidouro, que já sofre com ocupações irregulares ao longo do parque. A abertura de uma nova via, segundo ele, tenderia a impermeabilizar ainda mais uma área que já está fragilizada e impactada por intervenções urbanas. A impermeabilização do solo reduz a capacidade de absorção de água, intensificando o escoamento superficial e o risco de inundações, além de comprometer a recarga dos lençóis freáticos. Complementando essa visão, o titular da Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra o Meio Ambiente, delegado Luziano Carvalho, expressou sua total contrariedade à eventual abertura da via. Ele salientou que a área em questão é uma nascente e, como tal, exige proteção integral. “A Polícia Civil é totalmente contrária à abertura dessa rua no meio do parque. É um local que precisa ser protegido”, afirmou o delegado.
Estudos em andamento e diálogo integrado
Diante da complexidade da situação e da polarização de opiniões, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) informou que os estudos técnicos para avaliar as melhores condições de tráfego e mobilidade urbana na região do Parque Flamboyant e da Rua 56-A estão em andamento. A pasta esclarece que as análises se encontram em fase inicial e abrangem múltiplos fatores essenciais para uma decisão embasada.
Os estudos em curso consideram o fluxo de veículos existente e projetado, buscando entender as demandas reais e futuras da região. A segurança viária é outro pilar fundamental da análise, visando garantir que qualquer intervenção não aumente o risco de acidentes para motoristas, pedestres e ciclistas. Crucialmente, o impacto ambiental da proposta é avaliado com rigor, considerando a proximidade com o Córrego Sumidouro e a importância ecológica do Parque Flamboyant como área de preservação. Além disso, a Seinfra explora alternativas de engenharia que possam melhorar a circulação no entorno do parque sem necessariamente invadir sua área de proteção.
A secretaria enfatizou que o processo de análise ocorre de forma integrada, promovendo o diálogo constante com moradores da região e diversos órgãos municipais. Dentre os parceiros nesse diálogo estão a Secretaria de Engenharia de Trânsito (SET), a Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) e a Secretaria Municipal de Planejamento e Urbanismo Estratégico (Seplan). Essa abordagem colaborativa busca coletar diferentes perspectivas e dados, garantindo que todas as dimensões do problema e suas possíveis soluções sejam consideradas. A Seinfra reafirma que somente após a conclusão desses estudos e das análises complementares, com a consolidação de todas as informações técnicas e o feedback dos diversos stakeholders, poderá se manifestar de forma definitiva sobre a viabilidade de intervenções na região do Parque Flamboyant.
Perspectivas para a mobilidade e preservação em Goiânia
A discussão sobre a abertura de uma rua no Parque Flamboyant ilustra o dilema enfrentado por grandes centros urbanos: como conciliar o crescimento populacional e a demanda por mobilidade com a necessidade urgente de preservar áreas verdes e garantir a sustentabilidade ambiental. De um lado, há a pressão por soluções eficazes para o trânsito e o acesso a bairros adensados. De outro, a defesa intransigente de patrimônios ambientais e o respeito ao planejamento urbano, que visam a qualidade de vida a longo prazo. A decisão final sobre o futuro do Parque Flamboyant e da mobilidade no Jardim Goiás exigirá um equilíbrio delicado entre esses fatores, pautado em estudos técnicos robustos e um amplo consenso social, com o objetivo de construir uma Goiânia mais funcional e, ao mesmo tempo, mais verde e habitável.
Perguntas frequentes
Qual é o objetivo da proposta de abertura de rua no Parque Flamboyant?
A proposta da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) visa facilitar o acesso de veículos e desafogar o trânsito na região do Jardim Goiás, especialmente para motoristas que se deslocam no sentido oeste-leste, enfrentando congestionamentos na Rua 56-A e na Avenida Jamel Cecílio.
Quais órgãos e especialistas se opõem à proposta e por quê?
A Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano (Seplan), o advogado Sebastião Ferreira Leite (histórico na criação do parque), o especialista em Arquitetura e Urbanismo David Finotti (Arca) e o delegado Luziano Carvalho (DERCMA) se opõem à proposta. As justificativas incluem desrespeito ao status de área de preservação, riscos para frequentadores do parque, violação do Plano Diretor, impermeabilização do solo e impacto negativo sobre o Córrego Sumidouro, além da perda de uma área de nascente.
Quais são os próximos passos da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra)?
A Seinfra está realizando estudos técnicos aprofundados para avaliar o fluxo de veículos, a segurança viária, o impacto ambiental e as alternativas de engenharia para melhorar a circulação. A secretaria está em diálogo com moradores e órgãos como a SET, Amma e Seplan, e só se manifestará de forma definitiva após a conclusão e análise completa de todos os estudos.
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