Eleições municipais de 2024 redesenharam o mapa da política brasileira e expuseram três movimentos centrais: consolidação territorial, disputa pelo centro e corrida por sobrevivência das siglas.
As eleições municipais de 2024 redesenharam o mapa da política brasileira e deram pistas claras de como os partidos estão se organizando para 2026. Mais do que a velha leitura “governo x oposição”, o que se vê é um sistema em rearranjo, com três grandes movimentos: consolidação territorial, disputa pelo centro e corrida por sobrevivência institucional.
Os números ajudam a enxergar esse tabuleiro. Em 2024, o PSD de Gilberto Kassab foi o partido que mais elegeu prefeitos no país, desbancando o MDB, que tradicionalmente liderava esse ranking. Somados, PSD e MDB governam aproximadamente um terço dos municípios brasileiros, o que lhes garante enorme capilaridade local. Já o PL, sigla de Jair Bolsonaro, não foi o primeiro em número de prefeitos, mas teve o maior crescimento e tornou-se o partido com mais votos para prefeito e maior número de eleitores governados, consolidando-se como polo central da direita.
Do lado do governo federal, o PT segue como eixo da esquerda, ancorado na Federação Brasil da Esperança (com PCdoB e PV). A estratégia para 2026 passa por defender o legado do governo Lula, ampliar bancadas e disputar governos estaduais com base nessa rede de alianças. A força do PT é clara, mas cria tensões dentro do próprio campo progressista: partidos como PSB e PDT precisam equilibrar identidade própria e participação na coalizão.
Na direita, PL, PP e Republicanos formam o bloco conservador com maior presença institucional. Além do avanço em 2024, essas siglas controlam bancadas relevantes no Congresso e têm forte lastro em segmentos religiosos, no agronegócio e em governos estaduais. A principal interrogação para 2026 não é se esse campo terá um candidato forte, mas quem será esse nome – e em que medida Bolsonaro, mesmo eventualmente inelegível, seguirá como principal ativo político.
Entre esses dois polos, um conjunto de partidos atua como fiel da balança. PSD, MDB e União Brasil não querem ser apenas coadjuvantes. Os resultados municipais mostram que eles têm estrutura, fundo, tempo de TV e capilaridade. A dúvida é se algum deles arrisca uma candidatura presidencial competitiva ou se todos convergem, no fim, para reforçar um dos projetos já colocados à direita ou à esquerda.
A reforma política recente adicionou um elemento a mais nessa equação: as federações partidárias. Validadas como instrumento legítimo e estável de atuação conjunta de partidos, elas obrigam as siglas a compartilharem programa e estratégia por um ciclo inteiro, em tese mais duradouro que uma coligação tradicional.
Na prática, porém, a experiência tem sido turbulenta. A federação PSDB–Cidadania, criada em 2022 para superar a cláusula de barreira, foi encerrada em 2025 por decisão do Diretório Nacional do Cidadania, que considerou o arranjo desvantajoso em termos de cadeiras e espaço político. Na sequência, o partido chegou a negociar uma nova federação com o PSB, mas as tratativas foram interrompidas em meio a uma crise interna. O recado é claro: federações têm custo político elevado e só se sustentam quando há alinhamento real de projeto, não apenas cálculo contábil.
Um ponto frequentemente ignorado no debate público, mas central para 2026, é a representação dos partidos na Câmara dos Deputados, que define tempo de TV, rádio e participação em debates. O Tribunal Superior Eleitoral publica, em ano eleitoral, uma tabela oficial de representatividade das siglas e federações no Congresso, usada justamente para dividir o horário eleitoral e organizar os debates. Em outras palavras: não basta ganhar prefeituras; é preciso cuidar da bancada federal, porque é ela que garante visibilidade nacional e poder de negociação.
Olhando para esse conjunto de movimentos, 2024 funcionou como um ensaio geral. Vimos quem ampliou território, quem perdeu espaço em capitais e quem ainda busca um lugar claro nesse tabuleiro. A partir de 2025, entra em cena outra variável: estratégia. Partidos que conseguirem combinar base territorial, coerência programática e uso inteligente de dados terão vantagem na largada de 2026. Os demais tendem a se limitar a disputas defensivas, lutando para manter espaço mínimo em um sistema cada vez mais pressionado por cláusula de desempenho, custo de campanha e exigência de competitividade.
Em resumo, o “painel dos partidos” para 2026 não é apenas uma fotografia ideológica. É um mosaico que junta o mapa municipal redesenhado por 2024, o tamanho das bancadas no Congresso, as alianças e federações em teste e a capacidade de cada sigla de ler a realidade com menos achismo e mais evidência.
Em Goiás, esse reposicionamento também se faz sentir. Partidos que saíram fortalecidos das eleições municipais, especialmente em Goiânia e nas principais cidades do interior, entram em 2026 com mais estrutura, mais tempo de TV e maior capacidade de influenciar a formação de palanques estaduais e nacionais, principalmente aguardando a movimentação do principal líder político do Estado, o Governador Ronaldo Caiado, pré candidato a Presidência da República.
![]() | Bruno Netto é diretor de Planejamento Estratégico da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO). Trabalha com planejamento, comunicação e coordenação de campanhas eleitorais em diversos estados do país desde 2006. |




