A recente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Seul, marcando sua terceira passagem pela capital sul-coreana e a primeira como visita de Estado, vai além dos dez acordos bilaterais focados em tecnologia e cosméticos. Durante seu discurso, Lula destacou uma notável transformação: na década de 1960, a Coreia do Sul, recém-saída de uma guerra devastadora, possuía um Produto Interno Bruto (PIB) per capita inferior ao brasileiro. Hoje, essa métrica é três vezes maior, evidenciando uma ascensão econômica impressionante. Esse contraste não apenas ressalta o sucesso do desenvolvimento coreano, mas também provoca uma reflexão sobre como o Brasil pode se inspirar nesse modelo, especialmente no que tange ao intercâmbio cultural e à valorização de suas próprias riquezas artísticas, musicais e criativas. A cultura brasileira possui um potencial gigantesco que, se estratégicamente explorado, pode seguir um caminho de reconhecimento global similar ao sul-coreano.
A visita presidencial e o espelho coreano
A viagem presidencial à Coreia do Sul, focada inicialmente em acordos comerciais e tecnológicos, abriu um leque de discussões sobre o desenvolvimento e a modernização. O ponto central do discurso de Lula sobre o avanço econômico sul-coreano serve como um poderoso lembrete de que o progresso de uma nação não se restringe apenas à esfera material. A narrativa de um país que, em poucas décadas, superou desafios imensos para se tornar uma potência global ressoa com a busca brasileira por um caminho de desenvolvimento sustentável e inclusivo. No entanto, o que muitas vezes é subestimado nesse “milagre econômico” é o papel intrínseco que a cultura desempenhou e continua a desempenhar na construção da identidade e da projeção internacional da Coreia do Sul. Este contraste histórico entre os dois países oferece uma oportunidade ímpar para o Brasil reavaliar suas estratégias de fomento e exportação cultural, buscando inspiração em um modelo que provou ser eficaz para a construção de uma marca país forte e admirada globalmente.
O fenômeno coreano e seu pilar cultural
O “Milagre do Rio Han”, como é conhecido o rápido desenvolvimento econômico da Coreia do Sul, é frequentemente atribuído a fatores como investimento pesado em educação, tecnologia, inovação e uma forte ética de trabalho. Contudo, essa ascensão não pode ser desvinculada de um profundo senso de identidade nacional e de uma estratégia governamental consciente para promover sua cultura. Desde a reconstrução pós-guerra, houve um esforço coordenado para preservar e valorizar as tradições coreanas, ao mesmo tempo em que se incentivava a modernização e a criação artística contemporânea. Esse investimento multifacetado resultou na capacidade do país de transformar seus produtos culturais em verdadeiros embaixadores globais, gerando não apenas receita, mas também um imenso “soft power”. Esse poder brando permite que a Coreia do Sul exerça influência diplomática e econômica sem a necessidade de coerção, simplesmente pelo apelo de sua cultura e estilo de vida.
A onda Hallyu: um modelo de soft power
A manifestação mais visível desse sucesso cultural é a “Hallyu”, ou “Onda Coreana”. Esse fenômeno global engloba o K-pop, com grupos como BTS e Blackpink dominando paradas de sucesso internacionais; os K-dramas, séries televisivas que cativam milhões de espectadores em plataformas de streaming; o cinema, com produções aclamadas como “Parasita”, vencedora do Oscar de Melhor Filme; a gastronomia, que introduziu o kimchi e o bibimbap em mesas mundo afora; e a K-beauty, que revolucionou a indústria de cosméticos. A Hallyu não surgiu organicamente em larga escala; foi o resultado de políticas públicas estratégicas que incluíram subsídios, infraestrutura para produção de conteúdo, proteção de direitos autorais e uma agressiva política de exportação cultural. Governos sul-coreanos enxergaram o valor econômico e diplomático da cultura, investindo em academias de arte, escolas de dança e música, e incubadoras de talentos, transformando a criatividade em um pilar da economia nacional. O sucesso da Hallyu demonstra que a cultura pode ser um motor poderoso para o desenvolvimento econômico e para a construção de uma imagem internacional positiva, algo que o Brasil, com sua rica diversidade cultural, pode e deve aspirar.
Potenciais para a cultura brasileira: aprendizados e oportunidades
O cenário sul-coreano oferece lições valiosas para o Brasil. Em primeiro lugar, a importância de uma política cultural robusta e de longo prazo, que transcenda governos e invista na base da produção artística e criativa. Isso inclui a criação de mecanismos de fomento mais eficientes, infraestrutura adequada para a produção de filmes, músicas, peças de teatro e outras manifestações artísticas, além de programas de capacitação e internacionalização para artistas e produtores culturais. Em segundo lugar, a Coreia do Sul demonstra o poder da articulação entre cultura, tecnologia e mercado. A integração de plataformas digitais, a inovação em formatos de conteúdo e a exploração de novas mídias foram cruciais para a disseminação global da Hallyu. O Brasil, com sua vocação tecnológica e um mercado consumidor digital em expansão, possui o potencial para replicar essa sinergia. A rica diversidade cultural brasileira – do samba à bossa nova, da capoeira ao frevo, do cinema de autor às festas populares, da culinária regional às artes visuais contemporâneas – é um tesouro que aguarda uma estratégia de projeção internacional mais sistemática e ambiciosa.
Fortalecendo pontes: o caminho para o intercâmbio cultural
Para o Brasil, o aprendizado com a Coreia do Sul não se limita a emular estratégias, mas a forjar um caminho próprio que valorize sua singularidade. Isso pode ser feito através de parcerias bilaterais que promovam o intercâmbio de artistas, pesquisadores e estudantes, a criação de residências artísticas conjuntas, co-produções cinematográficas e musicais, e a organização de festivais culturais que celebrem tanto a cultura brasileira quanto a coreana em ambos os países. A diplomacia cultural, utilizando a música, o cinema e as artes como pontes, pode fortalecer os laços entre as nações e abrir novas portas para o turismo e o comércio. O governo brasileiro pode, por exemplo, incentivar a criação de mais institutos culturais no exterior, moldados no modelo do Instituto King Sejong coreano, que promove a língua e a cultura do país. Além disso, é fundamental investir na educação em artes e na proteção da propriedade intelectual, garantindo que os criadores brasileiros sejam devidamente reconhecidos e recompensados por seu trabalho, incentivando assim a inovação e a qualidade da produção cultural nacional.
Perspectivas para a colaboração futura
A visita do presidente Lula à Coreia do Sul serve como um catalisador para uma reflexão mais profunda sobre o papel da cultura no desenvolvimento nacional e na projeção internacional do Brasil. Inspirar-se no “milagre” coreano significa não apenas buscar o crescimento econômico, mas também reconhecer e investir no poder transformador da cultura. Ao adotar uma abordagem estratégica, integrada e de longo prazo para o fomento e a exportação de sua rica diversidade cultural, o Brasil pode fortalecer sua identidade, gerar novas oportunidades econômicas e consolidar sua posição como um ator relevante no cenário global, exercendo um “soft power” genuíno e cativante. As trocas entre Brasil e Coreia do Sul, que historicamente se concentraram em bens e tecnologia, têm agora a oportunidade de florescer no campo da cultura, enriquecendo ambos os povos e pavimentando um futuro de colaboração criativa e mútua valorização.
Perguntas frequentes sobre o intercâmbio cultural Brasil-Coreia
1. O que é “soft power” e como a Coreia do Sul o utiliza?
“Soft power” é a capacidade de um país influenciar outros por meio da atração e da persuasão, em vez de coerção militar ou econômica. A Coreia do Sul utiliza seu “soft power” principalmente através da “Hallyu” (Onda Coreana), que exporta sua música (K-pop), dramas (K-dramas), filmes, moda e gastronomia, tornando sua cultura popular e desejável globalmente, o que se traduz em influência política e econômica.
2. Quais são os principais desafios para o Brasil exportar sua cultura globalmente?
Os desafios incluem a falta de uma política cultural de exportação integrada e de longo prazo, escassez de financiamento e infraestrutura adequados para a produção e distribuição internacional de conteúdo, barreiras linguísticas e a necessidade de estratégias de marketing mais eficazes para atingir públicos diversos ao redor do mundo.
3. Como o Brasil pode se inspirar na Coreia do Sul para promover sua própria cultura?
O Brasil pode se inspirar investindo mais em políticas culturais de fomento, proteção à propriedade intelectual, infraestrutura para as indústrias criativas, capacitação de talentos e na utilização estratégica de plataformas digitais para a distribuição global. Além disso, deve buscar parcerias internacionais e promover sua diversidade cultural como um ativo valioso.
4. O que a visita de Lula a Seul significa para o futuro das relações culturais entre os dois países?
A visita presidencial, ao destacar o desenvolvimento coreano, abre uma janela para o Brasil observar e aprender com as estratégias culturais da Coreia do Sul. Embora os acordos iniciais sejam de natureza econômica e tecnológica, a reflexão sobre o sucesso cultural coreano pode impulsionar futuras discussões e iniciativas para fortalecer o intercâmbio e a cooperação cultural bilateral.
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