O carnaval brasileiro, uma das maiores manifestações culturais do mundo, sempre foi um espelho pulsante da sociedade, refletindo suas alegrias, suas dores e, invariavelmente, suas tensões políticas. Ao longo da história recente, a forma como o poder interage com essa celebração da identidade nacional passou por transformações significativas. Em 1975, o regime militar impunha uma censura explícita e draconiana, silenciando vozes e controlando narrativas que pudessem desafiar a ordem estabelecida. Hoje, em um cenário democrático, surge a discussão sobre uma forma mais sutil de influência: a cooptação voluntária. Essa tese sugere que, em vez da proibição direta, há um alinhamento mútuo entre artistas e governo, levantando questionamentos sobre a verdadeira independência da expressão cultural. Essa análise busca explorar essas duas faces da intervenção estatal no carnaval, comparando suas naturezas e potenciais impactos na liberdade de expressão.
O carnaval sob o regime militar: a mão pesada da censura
Durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1985), o carnaval, assim como outras manifestações artísticas e culturais, estava sob o rigoroso escrutínio dos órgãos de censura. O governo via no potencial de mobilização e crítica do carnaval uma ameaça à sua estabilidade e ideologia. A repressão não se limitava apenas a questões políticas diretas, mas abrangia também temas considerados imorais ou subversivos.
A censura explícita e seus mecanismos
Em 1975, no auge do regime, a censura era uma realidade tangível para compositores, carnavalescos e artistas. As letras de samba-enredo, as marchinhas e até mesmo os temas dos desfiles das escolas de samba passavam por uma análise prévia e minuciosa de censores federais. Qualquer menção a figuras políticas, críticas sociais veladas ou temas que pudessem ser interpretados como contestação era prontamente vetada ou modificada. Muitas vezes, os compositores e letristas eram obrigados a alterar versos inteiros, ou mesmo abandonar enredos completos, para obter a aprovação.
A ditadura não apenas proibia, mas também “sugeria” temas patrióticos, históricos ou de exaltação das belezas naturais do Brasil, direcionando a produção cultural para narrativas alinhadas aos interesses do Estado. A Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), vinculada ao Ministério da Justiça, tinha o poder de aprovar, reprovar ou cortar qualquer material. Artistas consagrados como Chico Buarque e Caetano Veloso, embora mais associados à MPB, sentiram na pele essa vigilância, com suas músicas frequentemente proibidas, obrigando-os a usar pseudônimos ou a exilar-se. No carnaval, a repressão era igualmente sentida, com escolas de samba tendo seus enredos sobre personalidades ou eventos históricos delicados rapidamente barrados. Essa censura explícita gerava um clima de medo e autocensura, onde a criatividade era podada pela preocupação em evitar problemas com o regime.
A nova dinâmica da cooptação cultural
Em contraste com a censura direta do passado, a era democrática apresenta desafios diferentes para a autonomia artística. A discussão contemporânea foca na ideia de “cooptação voluntária”, um fenômeno mais sutil e multifacetado, onde o alinhamento entre artistas e poder público pode ocorrer sem a necessidade de proibições explícitas.
Incentivos, alinhamento e o papel do Estado
A cooptação voluntária, no contexto atual do carnaval e da cultura brasileira, refere-se à situação em que artistas, escolas de samba e outras instituições culturais, por diversas razões, alinham-se aos interesses ou narrativas governamentais, não por imposição, mas por escolha ou por uma série de incentivos. Estes incentivos podem ser financeiros, como patrocínios públicos, verbas para projetos culturais ou eventos, ou mesmo a facilitação de burocracias e o acesso a plataformas de visibilidade.
O Estado democrático, diferentemente da ditadura, é um grande financiador e promotor da cultura. Através de leis de incentivo, ministérios e secretarias de cultura, e empresas estatais, há um volume considerável de recursos direcionados ao setor. Essa participação estatal, embora fundamental para a manutenção e desenvolvimento da cultura, pode criar uma dependência financeira. Ao invés de uma proibição, pode haver uma “preferência” por projetos que se alinhem a certas agendas, ideologias ou narrativas consideradas positivas pelo governo em exercício. Isso pode levar a uma autocensura indireta, onde os produtores culturais moldam seus trabalhos para se encaixarem nos critérios de financiamento, evitando temas controversos ou críticos que possam “desagradar” ou que não se coadunem com a visão de mundo dos patrocinadores estatais.
O perigo da sutil influência e a perda da crítica
A tese de que a cooptação voluntária pode ser “mais perigosa” que a censura explícita reside na sua sutileza e na dificuldade de identificação. Enquanto a censura é um inimigo claro e tangível, que gera resistência e solidariedade, a cooptação opera nas sombras, mascarada sob a forma de apoio e colaboração. O artista ou instituição cooptada pode não se perceber como tal, acreditando estar agindo de forma livre e autônoma, ou mesmo em benefício do bem comum.
O grande risco é a perda da função crítica e transformadora da arte. Se as manifestações culturais, incluindo o carnaval, passam a ecoar apenas as mensagens oficiais ou a evitar qualquer tipo de questionamento ao poder, elas perdem sua capacidade de provocar reflexão, de dar voz aos marginalizados e de ser um contraponto necessário à narrativa dominante. A independência artística, fundamental para uma democracia saudável, é minada não pela força bruta, mas pela sedução de recursos e reconhecimento. A pluralidade de ideias e a ousadia criativa podem ser sufocadas não por uma caneta vermelha, mas por um sistema de recompensas que, indiretamente, desestimula a divergência. A crítica, quando existe, torna-se uma exceção, e não parte intrínseca da cultura vibrante e livre.
O dilema da liberdade expressiva no carnaval
A transição da censura explícita para o debate sobre a cooptação voluntária reflete a complexidade da liberdade de expressão em diferentes contextos políticos. Durante a ditadura, a luta era contra um inimigo visível, que impunha sua vontade pela força. No cenário atual, o desafio é identificar e resistir a formas de influência mais veladas, que podem minar a autonomia artística de dentro para fora. O carnaval, com sua capacidade inata de ser um palco para a crítica social e a celebração da diversidade, permanece um termômetro vital da saúde democrática de uma nação. A vitalidade de sua expressão depende da vigilância contínua para garantir que suas cores, ritmos e mensagens sejam genuinamente livres, sem a sombra da opressão nem a teia da submissão implícita. Proteger a integridade da arte é essencial para a preservação de uma sociedade verdadeiramente livre.
Perguntas frequentes
1. Como a censura se manifestava no carnaval durante a ditadura militar?
Durante a ditadura militar, a censura se manifestava através da análise prévia de letras de samba-enredo, marchinhas e temas de desfiles por órgãos como a Divisão de Censura de Diversões Públicas. Qualquer conteúdo crítico ao regime, politicamente sensível ou considerado imoral era vetado, modificado ou banido, resultando em um forte controle sobre a produção cultural carnavalesca.
2. O que significa “cooptação voluntária” no contexto cultural brasileiro?
“Cooptação voluntária” refere-se a um processo onde artistas e instituições culturais alinham suas produções ou narrativas aos interesses ou agendas de um governo em exercício, não por imposição direta, mas por incentivos como financiamento, patrocínios públicos, ou busca por reconhecimento e visibilidade. Isso pode gerar uma autocensura indireta, onde projetos se moldam para se encaixar em critérios de apoio estatal.
3. Por que a cooptação voluntária pode ser considerada mais perigosa que a censura explícita?
A cooptação voluntária pode ser vista como mais perigosa porque opera de forma sutil, mascarada como apoio ou colaboração, tornando-a mais difícil de ser identificada e resistida. Ao contrário da censura explícita, que gera oposição clara, a cooptação pode erodir a independência e a função crítica da arte de maneira insidiosa, levando à perda da capacidade de questionar o poder e silenciando a diversidade de vozes por meio de incentivos, em vez de proibições.
4. Qual é o papel da arte e do carnaval na preservação da liberdade de expressão em uma democracia?
A arte, e o carnaval em particular, desempenham um papel crucial como espaços de reflexão, crítica social e celebração da diversidade. Em uma democracia, eles servem como um contraponto às narrativas oficiais, dando voz a diferentes grupos e provocando o debate público. A preservação de sua independência é fundamental para garantir que continuem a ser um termômetro da sociedade, livres para expressar todas as suas facetas, sem restrições ou influências indevidas.
Engaje-se com a discussão sobre a autonomia cultural e a liberdade de expressão no Brasil. Compartilhe suas perspectivas e ajude a fortalecer o debate sobre o futuro do nosso carnaval e da nossa arte.



