terça-feira, janeiro 27, 2026
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Menos aventureiros, mais votos: como a nova configuração eleitoral deve elevar a régua das proporcionais em 2026

As eleições municipais de 24 deixaram uma pista do que nos espera em 26: menos aventureiros na urna e mais disputa real pelas vagas nas casas legislativas. Enfim começamos a perceber de fato um dos objetivos das mudanças na legislação eleitoral que começou a se desenhar em 2015 com o fim das coligações proporcionais, cláusula de barreira mais dura e o advento das confusas e pouco eficientes federações partidárias. Mas a verdade é que agora as mudanças que começaram com a minirreforma de 10 anos atrás, começam a se traduzir numa reorganização concreta da oferta de candidaturas.

Conforme o Tribunal Superior Eleitoral em 2024, cerca de 463 mil pessoas pediram registro para os cargos de prefeito, vice e vereador, um volume menor do que em 2020. Só para as câmaras municipais, foram pouco mais de 431 mil candidatos disputando 58 mil cadeiras, contra quase 481 mil candidaturas quatro anos antes.

Não é um detalhe estatístico: é o sinal de que o sistema está ficando menos frouxo para aventureiros e mais seletivo com quem decide colocar o nome na urna.

Esse movimento não acontece no vazio. Ele é resultado direto da sequência de reformas político-eleitorais dos últimos anos. De um lado, o fim das coligações proporcionais obrigou os partidos a enfrentarem a eleição com a própria musculatura – sem se esconder atrás de legendas aliadas para puxar votos de forma cruzada.

De outro, a cláusula de desempenho/barreira, criada em 2017 e aplicada de forma escalonada, ficou ainda mais dura. Em 26, para manter acesso ao fundo partidário e ao tempo de rádio e TV, os partidos precisarão eleger 13 deputados federais ou alcançar 2,5% dos votos válidos para a Câmara, distribuídos em pelo menos nove estados, com no mínimo 1,5% dos votos em cada um deles. É muito voto, somado a uma capilaridade complexa para um país diverso e continental.

Como efeito colateral, partidos pequenos passaram a negociar fusões e federações para sobreviver, enquanto vários analistas apontam uma tendência clara de redução da fragmentação partidária e de “vida mais difícil” para siglas nanicas

Nas eleições municipais de 2020, já se dizia que o fim das coligações levaria a um “inchaço” de candidaturas ao legislativo. O que 2024 mostrou é quase o contrário: depois de uma primeira adaptação, muitos partidos começaram a conter o ímpeto de lançar qualquer um. O custo de carregar uma chapa cheia de nomes sem densidade eleitoral ficou alto demais.

Menos candidatos não significa, matematicamente, um quociente eleitoral maior, esse indicador depende do total de votos válidos e do número de cadeiras. Mas na prática a combinação de menos siglas viáveis, menos candidaturas simbólicas e mais planejamento na montagem das chapas tende a gerar um efeito concreto: os votos se concentram mais em poucos nomes competitivos, cai a chance de “eleição com votação muito baixa”, sobe a régua do desempenho individual.

Em outras palavras: se antes um candidato podia entrar no jogo apostando em 12 ou 15 mil votos no estado de Goiás, agora a régua psicológica e estratégica vai ficando mais alta.

Olhando para a última eleição nos municípios, especialmente para capitais onde há maior densidade eleitoral, esse fenômeno aparece com mais nitidez. Não apenas pelo tamanho do eleitorado, mas porque ali estão, em geral, os partidos mais estruturados, as campanhas mais caras e os testes mais claros das reformas.

Em Goiânia, por exemplo, a eleição de 2024 definiu uma Câmara Municipal com 39 cadeiras distribuídas entre 15 partidos ou federações, com o MDB liderando a bancada, com 8 vereadores, seguido pelo PL, com 4 cadeiras

Ou seja, ainda há fragmentação, mas a disputa pelas vagas se dá entre legendas que, em sua maioria, têm alguma estrutura e presença nacional ou regional.

O patamar de votação individual também ajuda a ilustrar o novo cenário. Na posse de 2025, a presidência da sessão coube ao vereador mais votado, Major Vitor Hugo (PL), com 15.678 votos. Ao seu lado, estavam o segundo mais votado, Professor Edward (PT), com 13.573 votos, e o atual presidente da Câmara, Romário Policarpo (PRD), reeleito com 11.496 votos.

Para quem olha de dentro do sistema, a mensagem é clara: ficou mais caro (em votos, estrutura e organização) estar entre os primeiros da fila. Em 2026, essa lógica tende a ser replicada nas chapas para a Câmara dos Deputados e para a Assembleia Legislativa, inclusive em Goiás.

É nesse contexto que se observa o recuo dos aventureiros nas eleições proporcionais. A figura do candidato que entra na disputa sem base clara, sem projeto e sem cálculo, apenas “para ver no que dá”, perde espaço quando o partido sabe que cada vaga na chapa tem um custo político e financeiro, as regras sobre sobras e desempenho mudam o peso de cada voto e a sobrevivência institucional da sigla depende de um resultado minimamente robusto na eleição seguinte.

Diante disso, os partidos pequenos adotam uma estratégia típica: prometem aos pré-candidatos um “voto mais barato” para se eleger, oferecem chapas com menos mandatários, dando a sensação de que “não haverá tubarões” disputando os mesmos votos e priorizam nomes sem mandato, vendendo a ideia de renovação e maior chance individual.

Já os partidos grandes caminham na direção oposta. Para defender espaço no Congresso e nas assembleias  e, em muitos casos, para não correr risco com a cláusula de barreira – tendem a concentrar o maior número possível de mandatários e puxadores de voto na mesma chapa. Isso profissionaliza o processo, mas traz um efeito colateral inevitável: parte dos atuais parlamentares não vai voltar, mesmo ficando com boas votações individuais, além disso a disputa interna passa a ser tão importante quanto a externa e a frustração com “chapas superlotadas” aumenta, embora seja quase uma consequência lógica das novas regras.

O que esperar de 2026

O desenho que emerge para 2026 é o de um sistema menos disperso e mais competitivo:

  • Menos partidos em condição de disputar sério, por causa da cláusula de barreira e da concentração de recursos em poucas siglas.
  • Menos candidaturas aventureiras, à medida que partidos e pré-candidatos percebem o custo político e financeiro de entrar num jogo mais duro.
  • Mais concentração de candidaturas competitivas nas chapas proporcionais, tanto nas legendas grandes quanto nas federações.
  • Maior média de votos por candidato realmente competitivo, o que aumenta a régua de desempenho individual.

Para o eleitor, o efeito prático pode ser contra intuitivo: ele verá menos nomes na urna, mas viverá uma eleição mais pesada, em que cada voto tem maior impacto na sobrevivência de partidos e projetos políticos. Para os candidatos, a era das aventuras eleitorais baratas está ficando para trás. A disputa pelo mandato proporcional, será cada vez mais um jogo de profissionais e cada vez menos um espaço para apostas improvisadas.

Bruno Netto do Espirito SantoBruno Netto é diretor de Planejamento Estratégico da Assembleia Legislativa do Estado de Goiás (ALEGO). Trabalha com planejamento, comunicação e coordenação de campanhas eleitorais em diversos estados do país desde 2006.

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