terça-feira, janeiro 27, 2026
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Marmelada de Santa Luzia: tradição que virou patrimônio cultural em Goiás

A marmelada de Santa Luzia, produzida no distrito homônimo de Luziânia, no entorno do Distrito Federal, é um ícone gastronômico que se destaca pela sua consistência firme e sabor inconfundível. Este doce, feito artesanalmente em tachos com apenas marmelo, açúcar e água, transcendeu a esfera culinária para se tornar um símbolo cultural da região. Em abril de 2022, a sua importância foi oficialmente reconhecida, sendo declarado Patrimônio Cultural e Imaterial de Goiás, uma iniciativa sancionada pelo governador Ronaldo Caiado. Com uma história que se entrelaça com os 279 anos de Luziânia, celebrados em dezembro, a receita da marmelada de Santa Luzia foi aprimorada ao longo de dois séculos, atravessando e unindo quatro gerações familiares que zelam pela sua perpetuação.

A jornada de uma tradição familiar centenária

A história da marmelada de Santa Luzia é um testemunho da persistência e do amor pela culinária que passa de geração em geração. A narrativa do produtor Carlucio Miguel Laquis ilustra a profundidade dessa herança cultural, que começou com sua bisavó e moldou a identidade de sua família e da região.

Origens e perpetuação da receita

Na família de Carlucio Miguel Laquis, a produção da marmelada teve início por volta de 1820, pelas mãos de sua bisavó, Ana dos Passos de Araújo Melo. Inicialmente, o doce era preparado com os marmelos cultivados na própria fazenda da família e, posteriormente, passou a ser comercializado na cidade. Carlucio descreve a sucessão: “Em meados de 1820, a minha bisavó começou a fabricar a marmelada. Depois que ela faleceu, a produção passou para a minha avó. A minha avó então passou para o meu pai ainda em vida. Com o falecimento do meu pai, eu herdei a marmelada de Santa Luzia.” Essa cadeia de transmissão não apenas preservou a receita, mas também manteve viva a memória de seus antepassados e o legado de um produto que hoje é sinônimo de excelência.

Educação e cultura local

A relevância cultural da marmelada de Santa Luzia é tamanha que sua história é parte integrante do currículo das escolas locais. Carlucio relata que as professoras utilizam o doce como ferramenta pedagógica, associando-o à letra “M” e explorando a cultura regional em atividades extraclasse. A fábrica, instalada em um casarão com mais de cem anos de idade, funciona como um centro de visitação frequente para estudantes, transformando o processo de fabricação em uma experiência educativa e imersiva. Este intercâmbio entre a produção artesanal e a educação formal garante que as novas gerações compreendam e valorizem a importância deste patrimônio imaterial.

Além das fronteiras de Luziânia: reconhecimento e expansão

A fama da marmelada de Santa Luzia ultrapassa os limites do distrito, alcançando reconhecimento em eventos religiosos tradicionais e cativando paladares por todo o país. A dedicação da família Laquis e de outros produtores garante que a tradição continue a florescer.

Fama na Romaria do Divino Pai Eterno

Um dos palcos mais importantes para a divulgação da marmelada de Santa Luzia é a Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade. Carlucio Miguel Laquis, por exemplo, comercializa o doce no evento há cerca de 30 anos. Ele recorda histórias emocionantes de seu avô, Lindolfo Hosana Batista, e do amigo Gutemberg Roriz, já falecidos, que outrora faziam a jornada de Luziânia até Trindade em carros de bois, carregando a valiosa mercadoria familiar. “A família inteira comercializava o doce na festa do Divino. A festa proporciona que as pessoas conheçam mais sobre a marmelada. Muitas pessoas ligam dizendo que querem o doce que conheceram em Trindade”, relata. Esse elo com uma das maiores celebrações religiosas do Brasil reforça o papel da marmelada como um elemento cultural que conecta fé, tradição e gastronomia.

O processo de produção e o sabor único

Kelle Dias Gonçalves Laquis, esposa e sócia de Carlucio, detalha o processo de fabricação. Embora em grande escala, a produção da marmelada mantém um caráter semiartesanal, utilizando tachos de inox motorizados — uma adaptação moderna à proibição dos antigos tachos de cobre. As caixetas de madeira, que acondicionam o doce, também são produzidas pela própria família, garantindo autenticidade em cada detalhe. “Mesmo assim, o método continua sendo artesanal”, afirma Kelle. Ela destaca que, apesar de muitos apreciarem o doce com queijo, é a tradicional “sopa de marmelo” – uma mistura do doce com queijo – que o torna verdadeiramente único. A marmelada é vendida durante todo o ano, mas é em janeiro, período da safra do marmelo, que as polpas são preparadas sem conservantes, assegurando a pureza e o frescor do produto.

Fortalecendo a identidade municipal

Marcos de Araújo Melo, secretário de Desenvolvimento Econômico de Luziânia, também é um guardião dessa tradição familiar. Seu pai, Vasco de Melo, produziu o doce até 2009, e hoje sua irmã, Márcia Melo, mantém a fabricação, seguindo rigorosamente o modo de preparo original, desde a seleção do açúcar até o uso exclusivo do marmelo cultivado na região. “Ela faz tudo com muito carinho e cuidado, exatamente da forma como meu pai fazia. Isso inclui, por exemplo, a escolha de um açúcar específico, que garante mais qualidade ao produto”, explica Marcos. Para ele, o reconhecimento da marmelada de Santa Luzia como patrimônio cultural e imaterial é crucial para valorizar a história e a identidade de Luziânia. “O doce é a nossa identidade cultural, tanto que a cidade é conhecida como Santa Luzia da Marmelada”, ressalta, enfatizando a importância de incentivar os jovens a preservar essa herança.

Reconhecimento e expansão

A qualidade da marmelada de Santa Luzia é atestada por clientes fiéis, como o advogado José Márcio Resende, morador de Brasília. Ele descreve o doce como a melhor marmelada do país, chegando a adquirir 70 caixas para presentear servidores de um hotel em Gramado (RS). “Com prazer, digo que esse doce é referência”, afirma. Além do sucesso comercial, a história da marmelada é cuidadosamente registrada por entusiastas como o aposentado José Egídio Pereira Lima, de Luziânia. Em suas redes sociais, ele compartilha fotos antigas e relatos de moradores que viveram os primeiros tempos da fabricação do doce, documentando a evolução e a permanência dessa tradição através da página “Recordar Luziânia”.

Receita caseira da marmelada de Santa Luzia

Para aqueles que desejam experimentar um pouco dessa tradição em casa, Carlucio Miguel Laquis compartilha a receita simples da famosa marmelada:

Ingredientes:
500 ml de água
1 kg e 200 g de açúcar
Massa de marmelo (a quantidade pode variar, mas geralmente o suficiente para dar consistência)

Modo de preparo:
1. Em uma panela, adicione a água e o açúcar. Leve ao fogo e cozinhe por aproximadamente 20 minutos, formando uma calda.
2. Acrescente a massa de marmelo à calda.
3. Mexa continuamente por mais 30 minutos, até que a mistura atinja o ponto desejado, ganhando consistência.
4. Retire do fogo e deixe a marmelada descansar por cerca de 12 horas, para que esfrie completamente e adquira a firmeza característica.
5. Após o resfriamento, a marmelada estará pronta para o consumo e poderá ser armazenada em caixas ou recipientes adequados. Carlucio destaca que, embora muitas marmeladas fiquem pastosas quando quentes, a de Santa Luzia ganha sua textura ideal após o repouso.

Conclusão

A marmelada de Santa Luzia representa muito mais do que um simples doce; ela é um pilar da identidade cultural e da história de Luziânia e de todo o estado de Goiás. Através de gerações de produtores dedicados, de métodos artesanais preservados e de um reconhecimento oficial como patrimônio imaterial, a marmelada consolidou seu lugar no cenário gastronômico e cultural brasileiro. Sua fama, que se estende de eventos religiosos a comunidades distantes, e a paixão de quem a produz e consome, garantem que essa doce tradição continue a encantar paladares e a contar histórias por muitos séculos vindouros, inspirando o orgulho regional e a valorização do saber-fazer ancestral.

FAQ

O que torna a marmelada de Santa Luzia especial?
A marmelada de Santa Luzia é especial por sua consistência firme e sabor marcante, resultantes de uma receita secular que utiliza apenas marmelo, açúcar e água. Além disso, seu preparo semiartesanal e a tradição familiar de quatro gerações contribuem para sua singularidade e reconhecimento como Patrimônio Cultural e Imaterial de Goiás.

Como a marmelada de Santa Luzia se tornou Patrimônio Cultural e Imaterial de Goiás?
A marmelada de Santa Luzia foi reconhecida como Patrimônio Cultural e Imaterial de Goiás em abril de 2022, por meio de uma lei sancionada pelo governador Ronaldo Caiado, em virtude de sua importância histórica, cultural e gastronômica para o estado.

Qual a origem da receita da marmelada de Santa Luzia?
A receita da marmelada de Santa Luzia tem suas origens em meados de 1820, quando foi iniciada por Ana dos Passos de Araújo Melo, bisavó do atual produtor Carlucio Miguel Laquis. Desde então, a receita foi adaptada e transmitida através de quatro gerações na mesma família.

Como é feita a marmelada de Santa Luzia atualmente?
A produção atual da marmelada de Santa Luzia é semiartesanal, utilizando tachos de inox motorizados para misturar os ingredientes. As caixetas de madeira para embalagem também são fabricadas pela família. O processo mantém a essência da receita original, garantindo a qualidade e o sabor característicos, especialmente com a polpa de marmelo fresca durante a safra da fruta em janeiro.

Explore a rica história e o sabor autêntico da marmelada de Santa Luzia, um verdadeiro tesouro goiano que transcende o paladar e celebra a cultura.

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