Em um movimento decisivo que reafirma seu compromisso com a responsabilização pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que vetará o Projeto de Lei (PL) da Dosimetria. A proposta, aprovada recentemente pelo Senado Federal, prevê a redução de penas para indivíduos condenados por crimes contra o Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado. A declaração do presidente, feita nesta quinta-feira (18), sublinha a importância de não negligenciar a gravidade dos eventos que abalaram as instituições brasileiras e a necessidade de que os responsáveis respondam integralmente pelos seus atos. Este posicionamento presidencial intensifica o debate público sobre justiça, anistia e a memória dos ataques à democracia.
O posicionamento presidencial e a defesa da democracia
Lula reitera compromisso com a responsabilização
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi categórico ao declarar sua intenção de vetar o PL da Dosimetria, logo após sua aprovação no Senado Federal. Em entrevista à imprensa no Palácio do Planalto, o chefe do executivo enfatizou que os indivíduos que cometeram crimes contra a democracia brasileira devem arcar com as consequências de suas ações. “As pessoas que cometeram crime contra a democracia brasileira terão que pagar pelos atos cometidos contra esse país. Nem terminou o julgamento, ainda tem gente sendo condenada, e o pessoal já resolve diminuir as penas. Eu quero dizer para vocês que, com todo o respeito que eu tenho ao Congresso Nacional, a hora que chegar na minha mesa, eu vetarei. Isso não é segredo para ninguém”, afirmou o presidente.
A fala de Lula sublinha uma postura firme contra qualquer tentativa de anistia ou abrandamento das punições para os envolvidos nos eventos de 8 de janeiro. Ele argumentou que é fundamental “terminar esse processo” e que as investigações sobre os financiadores dos atos golpistas também precisam ser levadas adiante. O presidente salientou a importância de não esquecer o que ocorreu, alertando para os riscos de negligenciar a defesa da democracia. “Nós precisamos levar muito a sério o que aconteceu no dia 8 de janeiro de 2023 e tem gente que quer que a gente esqueça, mas a gente não pode esquecer. Porque se a democracia esquecer da importância que ela tem para uma nação, a gente termina perdendo o jogo”, pontuou. Lula reconheceu o direito do Congresso Nacional de criar leis, mas ressaltou seu próprio direito constitucional de vetá-las, abrindo caminho para o trâmite legislativo de derrubada ou manutenção do veto.
A controvérsia em torno do PL da dosimetria
Tramitação no congresso e argumentos divergentes
O PL da Dosimetria tem sido o centro de uma intensa controvérsia no cenário político brasileiro. Sua aprovação pelo Senado, na quarta-feira (17), com 48 votos favoráveis e 25 contrários, foi o ápice de um processo legislativo que gerou grande polarização. O projeto, que segue agora para a sanção presidencial, busca alterar a forma de cálculo das penas para crimes como tentativa contra o Estado Democrático de Direito e golpe de Estado, especificamente quando praticados no mesmo contexto. Segundo o texto, nesses casos, aplicar-se-ia a pena mais grave, em vez da soma de ambas as penas. Adicionalmente, o projeto propõe uma “calibração” das penas mínimas e máximas de cada tipo penal, além de reduzir o tempo necessário para a progressão do regime de prisão fechado para semiaberto ou aberto.
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado já havia aprovado o parecer favorável do senador Esperidião Amin (PP-SC), relator da matéria. Amin, que é publicamente favorável à anistia, defendeu a redução das penas como um caminho para “pacificar o país”. Essa visão, contudo, é veementemente contestada por opositores do projeto. Eles argumentam que a proposta não reflete o anseio da sociedade brasileira por justiça e responsabilização, e que foi elaborada com o objetivo de beneficiar um grupo político específico que atentou contra as bases da democracia. Entre os potenciais beneficiários diretos das mudanças propostas pelo PL da Dosimetria, caso viesse a ser sancionado, estão figuras proeminentes, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-comandante da Marinha Almir Garnier, o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira, o ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Netto, e o ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) Augusto Heleno.
Reação parlamentar e acionamento do STF
A aprovação do PL da Dosimetria no Congresso Nacional não foi recebida sem resistência na esfera parlamentar. Ainda na quinta-feira, logo após o anúncio da intenção de veto do presidente Lula, quatro bancadas da Câmara dos Deputados – PT, PSB, PCdoB e PSOL – tomaram a iniciativa de impetrar um mandado de segurança junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). O objetivo é solicitar a suspensão da tramitação do projeto, argumentando possíveis inconstitucionalidades ou inadequações no processo legislativo.
Essa ação no STF demonstra a profundidade do rascunho político e jurídico que envolve o PL da Dosimetria. A tentativa de intervenção judicial reflete a preocupação de setores do Congresso com as implicações da lei para a responsabilização dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro, além de evidenciar a busca por um controle dos poderes diante de um tema tão sensível para a estabilidade democrática. A judicialização da questão adiciona uma nova camada de complexidade ao cenário, transformando o debate de uma questão meramente legislativa em uma disputa que pode ter seu desfecho nas mais altas cortes do país, sublinhando a importância da vigilância institucional e do equilíbrio entre os poderes.
A importância do debate democrático e a vigilância institucional
O anúncio do veto presidencial ao PL da Dosimetria marca um momento crucial no processo de responsabilização pelos ataques de 8 de janeiro e na consolidação da democracia brasileira. A firmeza do presidente Lula em defender a punição integral para crimes contra o Estado Democrático de Direito reflete uma percepção de que a impunidade, ou mesmo o abrandamento das penas para atos de tamanha gravidade, poderia erodir a confiança nas instituições e abrir precedentes perigosos para o futuro. O debate em torno deste projeto de lei transcende a simples questão jurídica; ele toca em valores fundamentais como justiça, memória e a proteção do regime democrático.
A controvérsia gerada, desde sua tramitação no Congresso, passando pela oposição de bancadas na Câmara e o acionamento do Supremo Tribunal Federal, ilustra a vitalidade dos mecanismos de freios e contrapesos no sistema político brasileiro. O veto presidencial, se mantido, ou mesmo sua derrubada pelo Congresso, fará parte de um diálogo contínuo entre os poderes. Independentemente do desfecho legislativo final, o episódio serve como um lembrete contundente de que a defesa da democracia exige vigilância constante, clareza nas sanções contra seus infratores e a recusa em esquecer os momentos de fragilidade institucional. A busca por pacificação, embora legítima, não pode se sobrepor à necessidade de justiça e à preservação da memória histórica dos fatos que marcaram o país.
Perguntas frequentes sobre o PL da dosimetria
O que é o PL da Dosimetria e qual seu principal objetivo?
O PL da Dosimetria é um projeto de lei que propõe alterações nas regras de cálculo das penas para crimes contra o Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado, especificamente relacionados aos atos de 8 de janeiro de 2023. Seu principal objetivo é reduzir as penas para os condenados, aplicando a pena mais grave quando crimes foram praticados no mesmo contexto, em vez de somá-las, e também diminuindo o tempo para progressão de regime.
Quem seriam os principais beneficiados caso o PL fosse sancionado?
Caso o PL da Dosimetria fosse sancionado, ele poderia beneficiar uma série de réus envolvidos nos atos de 8 de janeiro e na trama golpista. Entre os nomes publicamente mencionados como potenciais beneficiários estão o ex-presidente Jair Bolsonaro e alguns ex-ministros e militares de alto escalão de seu governo, como Almir Garnier (ex-comandante da Marinha), Paulo Sérgio Nogueira (ex-ministro da Defesa), Walter Braga Netto (ex-ministro da Casa Civil) e Augusto Heleno (ex-chefe do GSI).
Qual é o próximo passo após o anúncio de veto presidencial?
Após o anúncio do veto presidencial, o Projeto de Lei da Dosimetria retornará ao Congresso Nacional. Deputados e senadores terão a prerrogativa de analisar e votar pela manutenção ou pela derrubada do veto. Para que o veto seja derrubado, é necessária a maioria absoluta dos votos em cada uma das Casas (257 deputados e 41 senadores). Paralelamente, bancadas da Câmara dos Deputados já acionaram o Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a suspensão da tramitação do projeto, o que adiciona uma camada judicial ao processo.
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