Por Bruno Netto do Espirito Santo
O Brasil já perdeu dinheiro demais exportando matéria-prima barata pra depois importar tecnologia cara. Se a gente quer blindar a economia e gerar emprego bom de verdade, o caminho é simples de dizer (e trabalhoso de fazer): industrializar nossas commodities. E nada simboliza melhor essa virada do que as terras raras — base dos ímãs superpotentes que estão em motores de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, notebooks, equipamento médico, defesa… tudo o que move a economia digital e de baixo carbono.
O mundo inteiro está correndo atrás disso. Podemos constatar nos notíciários a prioridade do governo Trump nas negociações tarifárias. As vendas de veículos elétricos seguem subindo ano após ano. No Brasil, mesmo com altos e baixos de imposto e crédito, a participação dos eletrificados já entrou no radar do consumidor comum e das montadoras. A instalação da BYD em Camaçari (BA) é um sinal claro: o mercado veio. Fábrica grande puxa fornecedor, fornecedor puxa engenharia, a engenharia puxa universidade — e, quando a coisa acerta, vira um ecossistema que sustenta emprego qualificado por décadas.
Onde Goiás entra nessa história? Minaçu já colocou o Estado no mapa com a produção da Serra Verde, a primeira operação brasileira em escala a partir de argilas iônicas — justamente o tipo de depósito que pode fornecer elementos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, essenciais para os tais ímãs NdFeB. Eu não sou quimico, mas percebo o enorme potencial que temos. Goiás deixou de ser promessa e virou ponto de partida. Se a gente quiser ir além do “extrai e manda embora”, precisamos fazer a lição de casa agora.
Primeiro, licenciamento ágil e previsível — não é passar boiada; é dar regra clara, digital, com monitoramento ambiental sério e metas de prazo. Dever de casa que o governador Caiado já fez no seu primeiro mandato. Investidor odeia incerteza, e comunidade local tem que ver benefício real. Segundo, conteúdo local escalonado: não adianta obrigar 100% de nacionalização da noite pro dia, mas dá, sim, pra amarrar financiamentos e compras públicas a metas crescentes de produção aqui dentro: do concentrado, para óxidos separados, metal, liga, ímã e, por fim, motor. É nessa escadinha que o emprego melhora e o salário sobe.
Terceiro: gente preparada. Goiás tem UFG, IFG, Senai; dá pra montar um Centro de Materiais Magnéticos e Baterias em parceria com as empresas, focado em metalurgia do pó, sinterização, usinagem de precisão, metrologia, automação. Parece papo técnico? É mesmo — e é exatamente disso que saem os técnicos e engenheiros que vão ganhar bem e ficar no Estado porque as fábricas estarão aqui. Quarto: financiamento que chega no produto final. Não basta crédito pra abrir mina; é preciso linha pra forno de metalização, prensas isostáticas, retífica de ímã, encapsulamento, P&D. Isso eu descobri pesquisando, mas com certeza temos mentes e braços para isso! Onde entra a União? Nos instrumentos de política industrial já abertos (crédito, subvenção, compras governamentais) e na diplomacia econômica, firmando parcerias de médio prazo com Japão, EUA e Europa, atrelados a transferência tecnológica e treinamento local.
Quinto: conexão com a BYD e com a cadeia eólica. A fábrica da Bahia( primeira de mutas) precisa de motor, inversor, chicote, eletrônica… e ímã. A indústria eólica idem. Se Goiás aparece como fornecedor confiável de materiais magnéticos, não vai faltar comprador, lembrando que o Estado ja tem tradição na produção de veículos. E por que isso protege a economia? Porque, em vez de depender do humor do câmbio e do preço de minério bruto, você passa a exportar produtos de alto valor e, ao mesmo tempo, substitui importações de componentes críticos. A balança melhora, o PIB fica menos vulnerável e o emprego que nasce é de melhor qualidade.
Tem quem diga que “é sonho caro”. Pode ser — mas o custo de não fazer é maior. O mundo não vai consumir menos tecnologia; ao contrário, a eletrificação, a digitalização e a reindustrialização de vários países estão aumentando a demanda por terras raras e por tudo que depende delas. Se a gente ficar parado, vai assistir outros países comprarem nosso recurso barato, processarem lá fora e venderem pra nós o produto pronto. Já vimos esse filme. E ele termina mal.
A boa notícia é que o timing está do nosso lado. Temos projeto rodando (Serra Verde), geologia promissora em outras áreas do Estado, uma montadora gigante fincando pé no Brasil e instrumentos de política pública em vigor. Precisamos de coordenação e foco. Governo estadual pode criar um balcão único pro investidor, com metas de prazo e transparência total. Governo federal, direcionando os instrumentos da política industrial para fechar a cadeia no país e amarrar encomendas com metas de conteúdo local factíveis. Universidades e sistema S: formando gente na prática, lado a lado com as empresas. Bancos públicos e privados: financiando ativos produtivos e P&D.
E, sim, dá pra fazer isso com responsabilidade ambiental. Argilas iônicas exigem manejo cuidadoso de água e resíduos, recuperação de área e medição contínua — tudo isso existe, é mensurável e auditável. O Cerrado agradece quando a regra é clara e cumprida.
Industrializar nossas commodities é o antídoto contra a vulnerabilidade econômica. As terras raras são a avenida pra chegar lá. Goiás tem o carro ligado e o GPS apontado. Falta pisar no acelerador — com política pública inteligente, parceria sincera entre governo, empresas e academia, e metas que nos levem do minério ao ímã, do ímã ao motor, do motor ao carro elétrico. É assim que a gente transforma potencial em prosperidade, e discurso em emprego qualificado. Vamos fazer agora, enquanto a janela está aberta.
Bruno Netto é atualmente Diretor de Planejamento Estratégico na Assembléia Legislativa do Estado de Goiás e foi Sub secretário de Indústria, Comércio, Serviços e Mineração do Estado de Goiás entre 2020/21.



