A política externa dos Estados Unidos está passando por uma das suas mais significativas transformações desde o fim da Guerra Fria, marcando o que analistas consideram o declínio da hegemonia liberal e um retorno a princípios de realismo de poder. Esta nova estratégia dos EUA, debatida e detalhada em círculos de política externa, aponta para uma reorientação profunda na defesa nacional e nas relações internacionais do país. Longe de ser uma mera revisão tática, a mudança representa uma redefinição ideológica sobre o papel americano no mundo, priorizando a competição entre grandes potências e os interesses nacionais estratégicos acima da promoção universal de valores democráticos e instituições multilaterais nos moldes do pós-Guerra Fria. Este ajuste fundamental visa responder a um cenário geopolítico multipolar e cada vez mais desafiador.
A era da hegemonia liberal e seus desafios
Os pilares da ordem pós-Guerra Fria
Após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, os Estados Unidos emergiram como a única superpotência global, inaugurando uma era de predomínio que muitos descreveram como a “hegemonia liberal”. Sob essa doutrina, a política externa americana pautou-se na crença de que a promoção da democracia, do livre comércio e de instituições multilaterais (como a ONU, a OMC e a OTAN) não só beneficiava os valores americanos, mas também garantia a segurança e a prosperidade global. Acreditava-se que a interdependência econômica e a disseminação de sistemas políticos liberais reduziriam a probabilidade de conflitos e criariam uma ordem internacional mais estável e pacífica.
Durante décadas, Washington liderou esforços para construir e manter essa ordem, investindo significativamente em alianças, operações de paz, ajuda humanitária e intervenções militares destinadas a proteger direitos humanos e estabilizar regiões. A globalização econômica, impulsionada por políticas de abertura e integração, foi vista como um caminho para o desenvolvimento universal, com os Estados Unidos no papel de garantidor da segurança e da estabilidade marítima e comercial. Essa abordagem moldou a resposta a crises regionais, a expansão de mercados e a arquitetura de segurança global por mais de trinta anos.
O esgotamento do modelo
Contudo, ao longo das últimas duas décadas, o modelo da hegemonia liberal começou a demonstrar sinais de esgotamento. As intervenções militares no Iraque e no Afeganistão, embora inicialmente justificadas pela defesa da democracia e pela luta contra o terrorismo, revelaram-se custosas em vidas e recursos, e muitas vezes não produziram os resultados esperados de democratização e estabilidade. A crise financeira global de 2008 expôs as fragilidades da interdependência econômica e gerou descontentamento interno nos EUA e em outras democracias ocidentais, questionando os benefícios do livre comércio irrestrito.
Simultaneamente, a ascensão de potências como a China, com um modelo de desenvolvimento autoritário e capitalista de estado, e a Rússia, com sua postura revisionista e assertiva, desafiou a primazia ocidental e a universalidade dos valores liberais. Esses países passaram a contestar as normas e instituições existentes, buscando reequilibrar a ordem global a seu favor. A proliferação de crises regionais, o avanço do nacionalismo e o aumento da polarização política em diversas democracias também contribuíram para um ceticismo crescente sobre a eficácia e a sustentabilidade da abordagem liberal-hegemônica americana. Este cenário complexo forçou Washington a uma reavaliação estratégica.
O ressurgimento do realismo de poder
Foco na competição entre grandes potências
A reorientação estratégica dos Estados Unidos sinaliza um retorno inequívoco ao realismo de poder, uma doutrina que prioriza a segurança nacional e os interesses estratégicos em um cenário de competição entre grandes potências. Neste novo paradigma, a China e a Rússia são explicitamente identificadas como os principais concorrentes e, em certos contextos, adversários. A política externa americana passa a focar menos na transformação interna de outros estados e mais na gestão do equilíbrio de poder global, utilizando ferramentas diplomáticas, econômicas e militares para conter a influência de rivais e proteger a própria posição dos EUA.
Isso implica um investimento maciço na modernização militar, com ênfase em tecnologias disruptivas e capacidades que possam dissuadir e, se necessário, prevalecer em conflitos de alta intensidade. A estratégia também prevê um foco renovado em regiões-chave, como o Indo-Pacífico, onde a ascensão chinesa representa o maior desafio. Alianças são avaliadas não apenas por valores compartilhados, mas principalmente por sua utilidade geopolítica e capacidade de contribuir para a segurança e a projeção de poder dos EUA. A retórica sobre a promoção da democracia, embora não abandonada, é matizada pela priorização da estabilidade e da segurança.
Priorização de interesses nacionais e segurança
Dentro da perspectiva do realismo de poder, a priorização dos interesses nacionais e da segurança dos Estados Unidos assume centralidade. Isso se traduz em políticas que visam fortalecer a resiliência econômica interna, proteger cadeias de suprimentos críticas e garantir a liderança tecnológica em setores estratégicos. Medidas como a restrição de acesso a tecnologias avançadas para rivais, o incentivo à relocalização de indústrias essenciais e o controle de investimentos estrangeiros em setores sensíveis tornam-se ferramentas comuns.
A diplomacia, por sua vez, é empregada de forma mais transacional e pragmática, buscando acordos que beneficiem diretamente os interesses americanos, mesmo que isso signifique fazer concessões em outras áreas. A capacidade de projetar poder militar e econômico é vista como a base para a influência global, e as relações internacionais são frequentemente interpretadas através da lente da competição por recursos, mercados e esferas de influência. Essa abordagem não descarta a cooperação multilateral, mas a subordina à lógica da competição estratégica, participando de plataformas onde os interesses americanos possam ser avançados ou protegidos de forma mais eficaz.
Implicações globais da nova abordagem
As implicações dessa reorientação estratégica são vastas e sentir-se-ão em todos os continentes. Para os aliados tradicionais dos Estados Unidos, como os países europeus e Japão, a expectativa é de uma maior demanda por compartilhamento de encargos na defesa e uma ênfase renovada na interoperabilidade militar. A cooperação econômica pode se tornar mais seletiva, focando em parcerias que garantam a segurança de cadeias de suprimentos e a liderança tecnológica ocidental, em detrimento de uma globalização irrestrita. Há o risco de que esta abordagem mais pragmática possa testar a unidade de algumas alianças, caso os interesses nacionais americanos divirjam significativamente dos de seus parceiros.
Para as potências revisionistas, como a China e a Rússia, a nova postura americana sinaliza uma era de confronto mais direto, embora não necessariamente militar, em diversas frentes: tecnológica, econômica, diplomática e informacional. A competição por influência em regiões como o Ártico, o espaço cibernético e a África deve se intensificar. Já para países em desenvolvimento e potências médias, a escolha entre alinhamento com Washington ou Pequim, ou a busca por uma maior autonomia, tornar-se-á ainda mais premente. A ordem internacional, antes percebida como unipolar e liberal, agora se configura de forma mais explícita como um campo de jogo multipolar, onde o equilíbrio de poder é constantemente negociado e contestado.
Perguntas frequentes sobre a reorientação estratégica dos EUA
O que significa “realismo de poder” para a política externa dos EUA?
O realismo de poder na política externa dos EUA significa que o país passará a priorizar seus próprios interesses de segurança e poder em um cenário de competição entre grandes potências. Isso envolve fortalecer a capacidade militar, focar em alianças estratégicas pragmáticas e utilizar ferramentas econômicas para proteger e avançar os interesses nacionais, em vez de se concentrar primordialmente na promoção universal da democracia e dos direitos humanos.
Quais são os principais desafios para esta nova estratégia?
Os principais desafios incluem a manutenção da unidade entre os aliados ocidentais em face de interesses divergentes, a gestão do risco de escalada em confrontos com a China e a Rússia, a necessidade de investir massivamente em defesa e tecnologia sem comprometer o bem-estar doméstico, e a capacidade de adaptar-se a crises imprevistas em um ambiente geopolítico volátil.
Como isso afeta os aliados tradicionais dos EUA?
Os aliados tradicionais dos EUA podem ser afetados por uma maior expectativa de compartilhamento de encargos militares, uma demanda por maior alinhamento em questões de segurança e tecnologia, e uma reavaliação das prioridades econômicas. Embora a segurança mútua permaneça central, a relação poderá se tornar mais transacional, com Washington exigindo mais em termos de contribuições e alinhamento estratégico.
Acompanhe de perto as próximas análises e documentos para entender completamente os desdobramentos desta fundamental mudança na política externa americana.



