A recente visita do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky aos Estados Unidos, com o objetivo de discutir um plano de paz para a Ucrânia, colocou novamente em destaque a intrincada questão do Donbass. Esta região, localizada no leste da Ucrânia e atualmente sob ocupação russa e controle de entidades separatistas pró-Rússia, emerge como o principal obstáculo para qualquer acordo duradouro. A exigência da Rússia sobre o Donbass não é apenas uma disputa territorial, mas reflete uma complexa teia de fatores históricos, étnicos, econômicos e geopolíticos que definem o conflito. Entender a fundo a importância desta área para Moscou e Kiev é crucial para decifrar os impasses e vislumbrar possíveis caminhos para a resolução de uma das maiores crises de segurança da Europa nas últimas décadas. A região, rica em recursos e com uma população diversificada, tornou-se o epicentro de uma batalha por soberania e influência.
A história e geografia do Donbass: um caldeirão de identidades
O Donbass, um acrônimo para Bacia do Rio Donets, abrange as províncias ucranianas de Donetsk e Luhansk. Historicamente, esta área tem sido o coração industrial da Ucrânia, rica em carvão mineral e com uma robusta indústria siderúrgica. Durante a era soviética, a região atraiu trabalhadores de diversas partes da União Soviética, o que resultou em uma população etnicamente mista, com uma significativa porcentagem de falantes de russo, muitos dos quais se identificam culturalmente com a Rússia. Essa herança moldou profundamente a identidade local e as tendências políticas pós-independência da Ucrânia.
Um coração industrial e multiétnico
A industrialização pesada do Donbass remonta ao século XIX, intensificando-se sob o regime soviético. As minas de carvão e as gigantescas usinas metalúrgicas de cidades como Donetsk e Luhansk eram pilares da economia soviética, e depois ucraniana. A força de trabalho necessária para sustentar essa base industrial foi largamente suprida por russos e ucranianos russófonos, resultando em uma demografia onde a língua russa é predominante, e onde laços culturais e familiares com a Rússia são comuns. Apesar de ser parte integrante da Ucrânia desde sua independência em 1991, essa forte identidade russafófona e a dependência econômica da Rússia geraram tensões e aspirações por maior autonomia ou até mesmo por uma maior integração com Moscou ao longo dos anos. A percepção de um distanciamento cultural ou político de Kiev sempre foi uma semente para futuras dissidências.
O pós-soviético e as tensões crescentes
Com a dissolução da União Soviética em 1991 e a subsequente independência da Ucrânia, o Donbass enfrentou novos desafios. A transição econômica foi difícil, e a região, antes um motor industrial, começou a sofrer com o declínio de suas indústrias tradicionais. Ao mesmo tempo, a política linguística e cultural de Kiev, que buscava fortalecer a identidade ucraniana e a língua ucraniana, muitas vezes foi vista com desconfiança e ressentimento por parte da população russófonas do Donbass, que sentia seus direitos e sua identidade ameaçados. Essa divergência cultural e política foi habilmente explorada por Moscou, que passou a se apresentar como protetor dos russófonos no exterior, alimentando o descontentamento e as divisões dentro da Ucrânia.
O conflito de 2014 e a formação das repúblicas separatistas
A eclosão da crise em 2014, após a anexação da Crimeia pela Rússia e os protestos do Euromaidan em Kiev que derrubaram o presidente pró-Rússia Viktor Yanukovych, marcou um ponto de virada para o Donbass. Grupos separatistas, com apoio militar e político da Rússia, lançaram uma insurreição armada, resultando na proclamação das autodenominadas “Repúblicas Populares de Donetsk” (DPR) e “Repúblicas Populares de Luhansk” (LPR). Essas entidades, não reconhecidas pela comunidade internacional, estabeleceram um controle efetivo sobre partes das províncias de Donetsk e Luhansk, criando uma linha de frente que durou oito anos antes da invasão russa em larga escala de 2022.
A intervenção russa e a escalada da violência
Desde o início do conflito em 2014, a Rússia negou diretamente sua participação militar, mas evidências abundantes de armamentos, tropas e suporte logístico russo foram documentadas. A violência escalou rapidamente, com combates intensos que causaram milhares de mortes e o deslocamento de milhões de pessoas. A Ucrânia e seus aliados ocidentais acusaram a Rússia de agressão e de violar a soberania e integridade territorial ucraniana. A intervenção russa não foi apenas militar; ela incluiu uma campanha de desinformação e apoio financeiro às repúblicas separatistas, consolidando sua influência na região e minando a autoridade de Kiev.
Os acordos de Minsk e seu fracasso
Em uma tentativa de conter a violência, foram assinados os Acordos de Minsk I (2014) e Minsk II (2015). Estes acordos previam um cessar-fogo, retirada de armas pesadas, troca de prisioneiros e, crucialmente, uma ampla autonomia para as regiões controladas pelos separatistas dentro da Ucrânia, além de eleições locais sob lei ucraniana. No entanto, os acordos nunca foram plenamente implementados. Ambas as partes se acusavam mutuamente de violações, e as divergências sobre a sequência de passos (segurança primeiro, depois política, ou vice-versa) e sobre o controle da fronteira russo-ucraniana inviabilizaram qualquer progresso significativo. A falta de confiança mútua e a intervenção contínua da Rússia na região foram fatores decisivos para o fracasso dos acordos.
Por que o Donbass é crucial para Moscou
A exigência de Vladimir Putin sobre o Donbass, que culminou com o reconhecimento das repúblicas separatistas e sua posterior anexação em 2022, é multifacetada. Para a Rússia, o controle ou influência sobre o Donbass representa não apenas uma questão de segurança e geopolítica, mas também uma narrativa de “proteção” e restauração de uma suposta esfera de influência russa.
Interesses geopolíticos e segurança russa
Do ponto de vista estratégico, o Donbass serve como uma zona de amortecimento entre a Rússia e a Ucrânia, especialmente considerando a aproximação de Kiev com a OTAN e a União Europeia. A Rússia vê a expansão da OTAN para o leste como uma ameaça direta à sua segurança nacional. O controle do Donbass, ou a existência de uma Ucrânia enfraquecida e neutralizada, é crucial para a visão russa de sua segurança e poder regional. Além disso, a região oferece uma ponte terrestre para a Crimeia, um ativo estratégico valioso que a Rússia anexou em 2014. Controlar o Donbass também significa ter uma influência direta sobre a política interna da Ucrânia, impedindo sua plena integração com o Ocidente.
A narrativa da “proteção” e a identidade russa
A retórica de Moscou enfatiza a “proteção” dos falantes de russo e dos russos étnicos que, segundo o Kremlin, sofrem discriminação e perseguição por parte do governo ucraniano. Esta narrativa, embora contestada por Kiev e pela comunidade internacional, ressoa com uma parcela da população do Donbass e com setores da sociedade russa. A anexação do Donbass é apresentada como um ato de resgate e de reunificação de um povo “dividido”. Essa manipulação da identidade e da história é uma ferramenta poderosa para justificar a intervenção russa e angariar apoio doméstico para a guerra, evocando um senso de pertencimento e de “Grande Rússia”.
O futuro incerto da região e as negociações de paz
O Donbass permanece no centro do impasse entre a Ucrânia e a Rússia. Kiev insiste na total integridade territorial e na retirada de todas as forças russas e separatistas. Moscou, por sua vez, exige o reconhecimento de suas anexações territoriais, o que é inaceitável para a Ucrânia e a maioria dos países. A situação humanitária na região é crítica, com infraestruturas destruídas, economia em colapso e uma população traumatizada. Qualquer plano de paz que não aborde a soberania do Donbass está fadado ao fracasso. A complexidade de reintegrar a região, mesmo que um acordo fosse alcançado, seria imensa, considerando os anos de propaganda, as profundas divisões e as perdas humanas e materiais.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Onde fica o Donbass?
O Donbass é uma região histórica, econômica e cultural no leste da Ucrânia, compreendendo principalmente as províncias de Donetsk e Luhansk, que fazem fronteira com a Rússia.
Por que a Rússia reivindica o Donbass?
A Rússia reivindica o Donbass baseada em argumentos de proteção da população russófona, interesses geopolíticos de segurança e a necessidade de criar uma zona de amortecimento contra a expansão da OTAN, além de sua própria narrativa de reunificação histórica.
Qual o status atual do Donbass?
Atualmente, partes significativas do Donbass estão sob ocupação russa e controle de autodenominadas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk. A Rússia anexou formalmente essas áreas em 2022, uma ação não reconhecida pela comunidade internacional. O conflito armado persiste na região.
Para compreender a complexidade das relações internacionais e os desafios da paz, continue acompanhando as análises sobre o Leste Europeu.



