A complexa teia de sentimentos anti-Israel e anti-Estados Unidos, frequentemente observada em discursos políticos e sociais, tem suas raízes em uma corrente intelectual específica que emergiu e se consolidou nos anos 1960. Essa perspectiva, conhecida como “lógica terceiro-mundista”, redefiniu o entendimento das dinâmicas de poder globais, situando o conflito árabe-israelense e a política externa americana dentro de uma narrativa maior de imperialismo e resistência. Ao longo das décadas, essa abordagem influenciou significativamente a forma como esses atores são percebidos por militantes e pensadores em diversas partes do mundo. Compreender a gênese e a evolução dessa mentalidade é crucial para analisar a persistência de certas narrativas geopolíticas e ideológicas na atualidade.
As raízes intelectuais da contestação global
A década de 1960 foi um período de efervescência política e intelectual em escala global. Marcada por movimentos de descolonização, Guerra Fria e a ascensão de novas vozes no cenário internacional, essa era testemunhou o nascimento de correntes de pensamento que buscavam reinterpretar as relações de poder e as desigualdades entre nações. O contexto pós-Segunda Guerra Mundial e o surgimento de estados independentes na África, Ásia e América Latina criaram um terreno fértil para a formulação de teorias que contestavam a hegemonia ocidental.
O pan-africanismo e o anticolonialismo
Entre as mais influentes dessas correntes estava o pan-africanismo e o anticolonialismo. Intelectuais como Frantz Fanon, com sua obra “Os Condenados da Terra”, e líderes como Kwame Nkrumah e Patrice Lumumba, forneceram arcabouços teóricos para analisar a opressão colonial e suas consequências duradouras. O anticolonialismo não se limitava apenas à luta pela independência territorial; ele propunha uma reestruturação radical das relações internacionais e a superação das mentalidades colonizadas. Essa visão via os conflitos regionais e as tensões geopolíticas como manifestações de uma luta contínua contra formas de dominação, sejam elas políticas, econômicas ou culturais. Essa perspectiva foi fundamental para o desenvolvimento da “lógica terceiro-mundista”, que buscava unir as nações recém-independentes em uma frente comum.
A ascensão do pensamento terceiro-mundista
O conceito de “Terceiro Mundo” surgiu em meados do século XX para designar os países que não se alinhavam nem com o bloco capitalista (Primeiro Mundo) nem com o bloco socialista (Segundo Mundo). No entanto, rapidamente adquiriu uma conotação ideológica, representando um projeto de desenvolvimento autônomo e de resistência contra a dominação das grandes potências. A Conferência de Bandung, em 1955, e o Movimento dos Países Não Alinhados foram marcos importantes na articulação dessa identidade. Teóricos da dependência, como Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto na América Latina, e figuras como Samir Amin, no contexto afro-asiático, argumentaram que o subdesenvolvimento não era uma fase, mas sim uma condição imposta pela estrutura do sistema capitalista global. Segundo essa lógica, os países ocidentais desenvolvidos prosperavam à custa da exploração dos recursos e do trabalho das nações periféricas. Israel e os Estados Unidos, por sua vez, seriam inseridos nesse esquema como representantes ou agentes dessa estrutura hegemônica.
A projeção do “Terceiro Mundo” no conflito
Com a consolidação do pensamento terceiro-mundista, muitos dos conflitos e alianças geopolíticas passaram a ser interpretados sob essa lente. A Guerra Fria, por exemplo, não era vista apenas como um embate entre ideologias, mas também como uma disputa pela influência sobre o Terceiro Mundo, com os países emergentes buscando sua própria via de desenvolvimento. Dentro dessa moldura, a posição de Israel no Oriente Médio e a política externa dos Estados Unidos adquiriram significados específicos, alinhados com a narrativa de luta contra o imperialismo e a opressão.
Israel como proxy do imperialismo ocidental
Para a lógica terceiro-mundista, a criação do Estado de Israel em 1948, e seu posterior desenvolvimento e aliança com potências ocidentais, foi interpretada como um projeto neocolonial. A narrativa que se consolidou entre muitos militantes anti-Israel é a de que o Estado judeu seria uma “base avançada” do imperialismo ocidental na região, estabelecida para garantir os interesses estratégicos das potências europeias e dos Estados Unidos, especialmente no que tange ao controle de recursos energéticos e à manutenção da instabilidade regional. Os conflitos árabe-israelenses, desde a Guerra de 1948 até os dias atuais, foram lidos como manifestações dessa luta anticolonial, onde os palestinos seriam oprimidos e despossessos de suas terras, em um processo análogo ao que ocorreu em outras partes do mundo sob o jugo colonial. Essa perspectiva ignorou ou minimizou aspectos da autodeterminação judaica e a complexidade histórica do conflito, preferindo encaixá-lo em um modelo mais amplo de opressor-oprimido.
Os Estados Unidos e a hegemonia contestada
Os Estados Unidos, por sua vez, eram percebidos como a principal potência imperialista e hegemônica após a Segunda Guerra Mundial. Sua intervenção em conflitos ao redor do globo, seu apoio a regimes considerados autoritários e sua influência econômica através de instituições como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial eram vistos como provas de uma agenda de dominação. O pensamento terceiro-mundista questionava a legitimidade da hegemonia americana, acusando-a de explorar os recursos naturais e a mão de obra dos países em desenvolvimento, enquanto promovia uma ordem internacional que beneficiava apenas as nações ricas. O apoio dos EUA a Israel, bem como suas políticas na América Latina, África e Ásia, reforçava essa visão de um poder global que operava em detrimento das aspirações de autodeterminação dos povos do “Terceiro Mundo”. A crítica não se restringia apenas à política externa, mas também se estendia ao modelo capitalista e à cultura ocidental, vistos como ferramentas de homogeneização e submissão.
Legados e persistência da narrativa
A “lógica terceiro-mundista” não se dissolveu com o fim da Guerra Fria ou com a redefinição das categorias geopolíticas. Pelo contrário, ela persistiu, adaptando-se a novos contextos e encontrando eco em movimentos sociais e políticos contemporâneos. A globalização, embora tenha prometido uma maior integração, também exacerbou algumas desigualdades, o que permitiu que essa lente interpretativa continuasse relevante para muitos.
A instrumentalização política e a polarização atual
Hoje, essa narrativa é frequentemente instrumentalizada em discursos que buscam polarizar debates e mobilizar apoio para causas específicas. A crítica a Israel e aos Estados Unidos, muitas vezes descolada de uma análise contextual aprofundada, é enquadrada dentro de uma retórica de “imperialismo”, “colonialismo” e “apartheid”, que se alinha diretamente com os princípios da lógica terceiro-mundista. Essa simplificação complexifica o diálogo e impede a compreensão das nuances dos conflitos. A retórica anti-Israel e anti-EUA, baseada nesses fundamentos ideológicos, continua a ser uma força potente em partes do mundo, influenciando políticas, campanhas de solidariedade e até mesmo atos de protesto, reafirmando uma visão de mundo onde o Ocidente, e seus aliados, são os opressores e os demais, os eternos oprimidos. A persistência dessa mentalidade exige um olhar crítico sobre como narrativas históricas moldam a percepção de eventos contemporâneos.
FAQ
O que é a “lógica terceiro-mundista” no contexto anti-Israel e anti-EUA?
É uma corrente de pensamento que emergiu nos anos 1960, interpretando conflitos globais e políticas externas de potências como Israel e os EUA através da lente do anticolonialismo e da luta contra o imperialismo. Ela vê o “Terceiro Mundo” como vítima de exploração por parte das nações desenvolvidas.
Quais movimentos intelectuais dos anos 1960 influenciaram essa perspectiva?
Os principais movimentos incluem o pan-africanismo, o anticolonialismo e a teoria da dependência. A Conferência de Bandung e o Movimento dos Países Não Alinhados também foram fundamentais para a articulação política dessa lógica.
Como a visão de Israel e dos EUA foi moldada por essa corrente de pensamento?
Israel foi frequentemente visto como uma “base avançada” do imperialismo ocidental no Oriente Médio, enquanto os Estados Unidos eram percebidos como a principal potência hegemônica e exploradora global, responsável por perpetuar o subdesenvolvimento em outras regiões.
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